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Milhões de Festa 2014
Álbum Blue Sky Black Death, Nacho Picasso

Exalted

Um disco ironicamente tecido por uma colaboração entre instrumentalistas vestidos de negro e um rapper coberto em ouro: exalta-se a decadência, defende-se a dignidade.

Data de Edição
2012
Editora
Edição de Autor
Géneros
Hip-Hop, Rap
Por André Forte 28 de Junho, 2012

Exalted é um nome que diz praticamente tudo sobre este disco. A sua capa fala por si (e que bela que ela é, potencialmente). A imagem construída por Nacho Picasso é, quase, imaculada – não fossem os Blue Sky Black Death fazer a música sobre a qual coloca a sua voz irónica. Esbocem-se os sorrisos amarelos para essa característica desta colaboração: todo o álbum é revestido por um tom de escárnio, e não por kevlar. Não há bala a que esta colaboração de rap seja imune: eles exaltam a sua fragilidade através de estórias de abusos e excessos.

Por muitos tiros que Nacho apanhe no lombo, a sua crónica sonorizada pelo colectivo de Seattle vai acabar por perder o possível heroísmo da narrativa. O caminho de Exalted parte da epopeia onanista do gangsta rap para os ambientes negros, desconfortáveis, do trip-hop britânico, com o seu groove mórbido e hipnótico a operar de mãos dadas com as armas e drogas de que o MC usa e abusa. Facto que, de resto, é evidente ao longo do disco e, especialmente, no final de Kickin Out Windows, onde se ouve que o LSD não vicia, mas que é indubitavelmente alucinógeno. A música dos Blue Sky Black Death é realista, imune às sinapses distorcidas e dá uma perspectiva clara do que acontece: não há motivo de orgulho no que é dito. O embalo com que nos levam nos seus sintetizadores, ritmados por batidas arrastadas, será sempre a maior prova disso.

Nacho Picasso surge, assim, como um rapper que não chegou a trocar as ruas por um contrato discográfico – e não é que o aviso não tenha sido feito às editoras, ouça-se Tom Hanks. É certo, longe das luzes da ribalta, tudo é envolto num negrume assustador. A grande capacidade desta colaboração reside nisso mesmo: consegue dopar-nos e envolver-nos no pior da condição humana, sem que nos deixe de consciência tranquila quanto a isso.