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Álbum Sérgio Godinho

Mútuo Consentimento

Com óptimos convidados, o último disco de Godinho mostra que a colaboração com Os Assessores faz todo o sentido

Data de Edição
2011
Editora
Universal
Géneros
Folk, Singer/Songwriter, World
Por João Torgal 25 de Janeiro, 2012

2011 marcou quarenta anos após o lançamento do disco de estreia de Sérgio Godinho, Os Sobreviventes, e dez desde o início da colaboração com Os Assessores, ou seja, quarenta anos desde a base e dez desde a reinvenção. Não que a carreira de Godinho se tivesse tornado mortiça no espaço anterior a 2001, e bastaria o excelente Domingo no Mundo (1997) para o comprovar, mas ganhou um novo fôlego, um novo arrojo e abriu horizontes estéticos.

Mútuo Consentimento, o novo trabalho discográfico em parceria com o projecto de Nuno Rafael, mostra bem esse risco, a incursão por novos caminhos sonoros. Depois do tema de abertura, com a reflexão declamada, requintada e circular de Mão na Música, isso fica claro na recriação de Bomba Relógio (escrito originalmente para Cristina Branco), com uns sintetizadores muito 80’s e quase deliciosamente dançáveis, na cadência rítmica da bateria e do xilofone de A invenção da Roda, nas guitarradas bluesy do grande manifesto político que é Acesso Bloqueado e de Eu Vou a Jogo ou no início muito Gang of Four de Linhagem Feminina. O único passo em falso estará eventualmente na nova versão de Vai Lá. Percebe-se a ideia de introduzir um cunho mais cru, retirando a leveza pop introduzida pelas Tucanas no original, mas o resultado não é tão inspirado como outros momentos do álbum.

Para além d’Os Assessores, Mútuo Consentimento conta com convidados fundamentais. José Mário Branco dá uma perninha no escondido Faz Parte (o retorno das audácias), Minta fez a música do pequenino e bonito tema título e a Roda do Choro de Lisboa acrescenta uns toques brasileiros bem interessantes a Intermitentemente. Contudo, o melhor está provavelmente nas colaborações com Noiserv e Bernardo Sassetti. David Santos acrescenta a enorme intensidade dramática e melancólica de Noiserv em A Vida Sobresselente, enquanto o pianista fez a fabulosa melodia sombria de Em Dias Consecutivos, completada na perfeição pela crítica social subliminar da letra e pela interpretação, com a força tão especial de Godinho.

Cinco anos depois de Ligação Directa, Mútuo Consentimento é então uma óptima fusão entre os traços fundamentais da carreira de Sérgio Godinho, um espírito de aventura, da busca de outros desafios, novamente criados p’lOs Assessores, e uma cuidada escolha de convidados. Pode não ser um disco consensual e figurar no topo da sua discografia, mas é, por certo, um passo em frente e um grande sinal de vitalidade do histórico músico português.