"No final do dia procuramos, acima de tudo, fazer música que nos complete e com a qual nos identificamos."
Numa altura em que a banda já aponta baterias para o sucessor do aclamado "Erosion", o PA' foi falar com Hugo Santos, vocalista e guitarrista dos Process of Guilt.
"[O novo disco] será, naturalmente, um trabalho diferente do «Erosion», que já data de 2009, sendo que, do período que decorreu desde esse momento até agora, procurámos retirar as melhores ilações possíveis e prosseguir com o que queremos, efectivamente, fazer enquanto músicos e banda."

Iniciaram o seu percurso em Évora, há quase dez anos. Hoje, depois de álbuns como "Renounce" e, principalmente, "Erosion", os Process of Guilt são um nome imponente no underground português e de obrigatória referência quando o assunto é doom. A banda prepara-se, agora, para entrar em estúdio, de onde sairá o seu terceiro álbum, e o PA' conversou com Hugo Santos não só sobre o seu novo passo discográfico, como também sobre outros capítulos da carreiro do grupo.
Dois anos passaram desde o lançamento de Erosion, um álbum extremamente bem recebido pela crítica - inclusive, figurou no top anual do site metalstorm.net. O facto de serem, desde 2009, constantemente referenciados como uma grande banda nos meandros do underground nacional colocou um maior peso sobre os vossos ombros, a nível criativo?
Julgo que não, apesar de ficarmos contentes com essa referência à nossa música e com o destaque de que o Erosion foi alvo ao nível da crítica, o único peso que sentimos nos ombros corresponde àquele que nós próprios impomos relativamente ao nosso processo criativo. No final do dia procuramos, acima de tudo, fazer música que nos complete e com a qual nos identificamos. Se o público também se revê nessa mesma música tanto melhor, mas, de facto, apenas “reduzimos” a criação de novas músicas ao que, em determinado momento, mais nos reflecte enquanto banda e indivíduos.
"Não partilhamos, de todo, do discurso miserabilista que na maior parte das vezes só serve para disfarçar alguma falta de certeza e confiança no que se faz."
O Erosion também vos abriu uma outra porta: tocaram pela primeira vez no estrangeiro, em Espanha e Holanda. Têm como meta expandir definitivamente o vosso som além-fronteiras? Não sentem um pouco aquele síndrome-cliché do 'se fossemos ingleses, suecos ou holandeses poderíamos atingir outro patamar'? E por patamar, refiro-me à possibilidade de poderem viver da música e concentrarem-se somente nela. Ou, por outro lado, também sentem que permanecer num dia-a-dia normal favorece a criação artística?
Ainda continuamos no patamar em que lutamos quotidianamente para ter as condições necessárias a poder continuar a fazer música. A conversa fácil seria fazer o discurso de sempre, do “se estivéssemos lá fora é que era” mas, efectivamente, nunca o saberemos, dado tal implicar, necessariamente, uma alteração das condições que, em primeiro lugar, nos levaram a fazer música em conjunto. Poderíamos dizer que, potencialmente, talvez fosse mais fácil divulgar o nosso som se estivéssemos localizados no centro da Europa (ou em qualquer outro país associado a uma qualquer “moda” musical) dada a conjuntura geográfica, económica e social destes países. No entanto, a realidade é que tantos “e se” nos afastam do cerne da questão, que é o facto de sermos fruto de um contexto pessoal e musical específico que teve a sua génese numa cidade pequena, no interior de um pequeno país, localizado na periferia de uma, cada vez maior, Europa. Pelo que, o único que nos assiste é continuar a desenvolver a nossa música, sabendo que a fazemos aqui, e acreditar que conseguimos exibi-la nas melhores condições fora de Portugal, sempre que tal for possível. Não partilhamos, de todo, do discurso miserabilista que na maior parte das vezes só serve para disfarçar alguma falta de certeza e confiança no que se faz. Quanto ao vivermos da nossa música, julgo que isso é o objectivo da quase totalidade dos músicos, no entanto, atendendo à natureza underground da mesma e ao momento actual que vivemos, trata-se, apenas, de algo de falamos muito esporadicamente sem, no entanto, visualizar “o como” no curto prazo.

Apesar de serem um nome consagrado em Portugal e, por conseguinte, certamente alvo de múltiplas propostas para concertos, os Process of Guilt parecem seguir uma certa escola que faz recordar uns Neurosis. Ou seja, aparentam ser criteriosos no que à escolha de concertos diz respeito. Salvo erro, em 2011 apenas tocaram no Fest da Major Label Industries no Side-B. Isso deve-se ao facto de as vossas performances serem bastante intensas, exigindo bastante a nível emocional e físico de cada um, ou há outro motivo?
Este ano acaba por ser um pouco atípico no que a actuações nossas diz respeito, uma vez que optámos por nos concentrar, quase por exclusivo, na composição do sucessor do Erosion, relegando para segundo plano as actuações ao vivo. Os pontos que referes, nomeadamente, a escolha dos locais e o esforço em proporcionar uma performance intensa, que não defraude o público, também correspondem à verdade. Porém, as razões não se prendem, apenas, com as enunciadas. Actualmente, residimos em pontos separados do país fazendo um esforço por nos reunirmos em Évora com bastante assiduidade para ensaiarmos e continuarmos o nosso processo criativo do melhor modo. Todos nós temos actividades quotidianas bem distintas e com horários e responsabilidades que nem sempre são compatíveis com o esforço que representa a preparação de um concerto extemporâneo, tendo nós que abdicar do que planeamos para concretizar uma determinada data. Se a este ponto associarmos a dimensão do país, o público que regularmente assiste a concertos de natureza mais underground e as condições oferecidas para a banda tocar, é natural que façamos uma selecção e apenas aceitemos as propostas que, naturalmente, sejam as mais vantajosas. Deste ponto de vista, e já tendo alguma experiência ao nível das oportunidades, salas e promotores que existem no nosso país, preferimos trabalhar com quem respeita as bandas e a música das mesmas ao invés de irmos “a todas”. O nosso interesse passa, acima de tudo, por podermos proporcionar o melhor concerto possível, em condições que permitam a melhor percepção relativamente ao que somos ao vivo.
"O objectivo último é que o nosso trabalho seja abordado de forma a que palavras, música e imagem se interceptem e complementem, sendo que nos importa, acima de tudo, que o resultado final seja percebido como um todo."
Indo um pouco mais à essência daquilo que compõe os Process of Guilt, vocês parecem ser uma banda bastante preocupada com o capítulo conceptual, não deixando somente a vossa mensagem a cargo dos instrumentos, nem usando as palavras de forma obsoleta. Se Renounce já dava a entender esse aspecto, Erosion confirmou-o, com todo o sublinhar do processo de erosão, que, no fundo, acaba por actuar, a meu ver, como uma metáfora sobre o ciclo da vida. De onde retiram a inspiração a nível temático? É somente algo pessoal ou também se baseiam noutras formas de arte, como a literatura, por exemplo?
É assumido por nós que essa inspiração é do foro maioritariamente pessoal, sendo que, enquanto principal responsável pela elaboração das letras, julgo que a nossa experiência quotidiana já nos brinda com exemplos mais do que necessários para o desenvolvimento das temáticas abordadas em Process of Guilt. O objectivo último é que o nosso trabalho seja abordado de forma a que palavras, música e imagem se interceptem e complementem, sendo que nos importa, acima de tudo, que o resultado final seja percebido como um todo.
O The Circle veio mostrar uma faceta pouco comum. Nem todas as bandas arriscariam que uma faixa sua fosse interpretada por vários músicos, principalmente quando estes vêm de tão distintos quadrantes. De onde surgiu essa ideia?
A ideia surgiu durante as sessões de gravação do Erosion. Após terminarmos o registo dos temas, todos concordámos que The Circle (Erosion Part I) se proporcionava a outro género de experiências. Nesse momento decidimos, também, que a abordagem a seguir seria a mais experimental possível, pelo que o leque de convidados deveria representar, acima de tudo, um afastamento relativamente ao que seria mais óbvio para a nossa sonoridade. É claro que todo este processo demorou bem mais tempo do que o inicialmente previsto, no entanto, julgo que o resultado final impressionou todos os envolvidos, o que, só por si, já nos deixou bastante satisfeitos.
Essa vossa experiência acabou igualmente por confirmar que os Process of Guilt são uma banda pouco dada a gimmicks e que é perfeitamente capaz de adoptar uma veia mais experimental no futuro. Imaginam-se a sair da vossa 'área de conforto' e a enveredar por diferentes caminhos musicais, um pouco ao estilo de Caïna, com quem vocês têm um split?
Por enquanto estamos imersos no desenvolvimento da nossa sonoridade, tentando descobrir até onde a podemos levar dentro do que consideramos ser a nossa expressão, dado que a estagnação associada à definição de uma qualquer área de conforto, já por si, representa um conceito que nem sequer consideramos. Quanto ao cariz experimental de que falas, é algo de que de um modo ou de outro nos sentimos próximos, mas, de momento, é apenas uma possibilidade de entre tantas outras que possam ocorrer no futuro.
Diz, quem viu o vosso concerto no Side-B este ano, que as novas músicas estão bastante boas. Já entraram em estúdio para gravar? Podem revelar-nos alguns pormenores sobre o disco, como a sua data de lançamento, sonoridade ou se o Collin Jordan vai voltar a ficar encarregue da masterização?
Os temas novos apresentados no Side-B representam uma boa ideia daquilo que pensamos fazer no próximo trabalho, contudo, uma vez que estamos a ultimar detalhes ao nível da pré-produção e apenas entraremos em estúdio no final deste Verão, é cedo para avançar com mais informação a respeito dos detalhes deste trabalho. O que podemos referir é que será, naturalmente, um trabalho diferente do Erosion, que já data de 2009, sendo que, do período que decorreu desde esse momento até agora, procurámos retirar as melhores ilações possíveis e prosseguir com o que queremos, efectivamente, fazer enquanto músicos e banda.





