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Entrevista Zu

"Os Zu são o tipo de banda para se sentir ao vivo"

Depois de por cá terem estado pela última vez em 2009, os Zu voltam a Portugal para actuar no Milhões de Festa, já com novo baterista.

"Eu acho que a música criativa é demasiado importante para se manter fechada num ghetto elitista. Nos anos 70, havia grandes bandas a tocar para plateias enormes. Depois, tudo mudou. A pop ganhou… Que raio aconteceu? Foi a MTV? Madonna? A CIA? Seja como for, nós precisamos de mudar isso, a Lady Gaga não pode levar a melhor!"

Por Emanuel Pereira 8 de Julho, 2011

 

Habituados a percorrer meio mundo sem parar, os Zu enfrentaram recentemente uma quebra, com a saída do seu baterista de sempre Jacopo Battaglia. Recuperado do sobressalto, e com um novo membro nas baquetas, o trio romano já está a preparar o sucessor de 'Carboniferous' - álbum que os colocou nas bocas do mundo underground. Viciados em tocar ao vivo, os Zu têm também Portugal na sua agenda, com uma aparição no dia 23 de Julho, no Milhões de Festa, e o PA' aproveitou a oportunidade para falar com o simpático Massimo Pupillo, baixista e membro fundador do grupo.

Antes de mais, qual é o significado e o conceito por detrás do nome Zu?

O nome Zu é alemão e significa ‘fechado’. Refere-se a uma fase das nossas vidas em que literalmente nos fechámos durante dois anos numa sala a escrever o nosso primeiro álbum – basicamente, banimos todo o aspecto social das nossas vidas. Foi igualmente uma maneira de não nos levarmos tão a sério. O nome tem também uma ideia concreta: a imagem alquímica de Aethenor, o forno onde a temperatura sobe e onde as coisas se transformam e se mutem. Se for aberto antes de tempo, nunca se conseguirá atingir a temperatura certa para que o trabalho fique feito.

É difícil classificar Zu com um certo género – normalmente, isso até é um elogio. Mas como catalogas o vosso som?

Ruidoso.

O baterista Jacopo Battaglia fez parte da formação original e muitos consideravam-no um tremendo baterista em palco. Qual foi a razão da sua saída e como foi o processo de substituição?

O Jacopo saiu para tocar com os The Bloody Beetroots. Acho que ele estava a precisar de uma grande mudança na sua vida. Nós tínhamos muita gente em consideração para a posição, mas, como é habitual em nós, o mais importante é o lado humano – até mais do que o facto de ser um grande músico. No fundo, nós passamos mais tempo com a banda do que com as nossas mulheres e família. Portanto, é importante que nós gostemos do gajo que se senta ao nosso lado na carrinha, no avião, em palco, ao jantar e afins! Nós conhecemos o Balasz Pandi entretanto e as coisas fluíram normalmente, com ele a preencher a posição de baterista.

O Balasz Pandi vai ser o vosso baterista em estúdio ou é somente um músico para tocar ao vivo? Vai também estar convosco nesta tour de Verão?

Sim, o Balasz é o novo baterista de Zu. Ponto.

Tu disseste há algum tempo que os Zu estavam a preparar um novo álbum, o sucessor do muito aclamado Carboniferous. Vocês já estão em estúdio ou o processo foi interrompido pela saída do Jacopo?

Nós começámos agora a compor e estamos totalmente empolgados. A música está a sair e eu acho que vai ser uma boa surpresa. Vai valer a espera.

"Eu confio nos meus instintos: sei que a determinada altura eles vão dizer “pronto, está na altura de parar de compor e começar a gravar”, como é habitual."

O Carboniferous colocou os Zu como uma banda proeminente na cena underground – a Rock A Rolla classificou-o como o seu álbum do ano em 2009. As expectativas estão altas para o próximo disco, portanto é difícil para vocês lidarem com isso? Sentem a pressão, agora que estão num nível superior?

Não, eu sou muito bom em ser burro. Dificilmente sinto qualquer outra pressão para além daquela que coloco em cima de mim – que é bastante grande. Eu confio nos meus instintos: sei que a determinada altura eles vão dizer “pronto, está na altura de parar de compor e começar a gravar”, como é habitual.

O Carboniferous também marcou a vossa primeira experiência com a Ipecac. Como é que vocês se tornaram parte da editora do Mike Patton e do Greg Werckman?

Nós conhecemos o Mike em 2000, quando Fântomas veio tocar a Roma pela primeira vez. Conhecemo-nos, houve um ‘clique’ e mantivemos o contacto desde aí. O Patton deu a ideia de aparecer num festival connosco e, desde aí, começámos a tocar juntos, bem como a planear as coisas para o Carboniferous. A Ipecac é a minha editora favorita, não porque os Zu façam parte dela, mas porque eles lançaram a minha música favorita da última década. Como tal, é uma boa sensação pertencer à Ipecac.

E como foi trabalhar com lendas como o Mike Patton ou o Buzz Osborne (músicos que, certamente, vos inspiraram, ainda antes de formarem os Zu)?

Tudo aconteceu de forma muito natural e relaxada. Nós sentimo-nos honrados pelo facto de o Buzz gostar de Zu. Quando andámos em tour com Fântomas e Melvins, tivemos bastante tempo juntos e descobrimos que partilhamos bastantes coisas para além da música. Assim, quando fizemos a última tour pelos EUA, pareceu-nos boa ideia marcar uns ensaios com o Buzz e com o Dale Corver, em Los Angeles. Nós perguntamos-lhes se eles alinhavam e eles disseram imediatamente que sim. Trataram de agendar um ensaio com o engenheiro de som favorito deles, o Toshi Kasai, que também toca com os Big Business agora. Foi tudo muito fluído e normal, sem tretas de rockstar…

"O facto de podermos partilhar uma série de coisas na música é como uma grande orgia com todas as tuas pessoas favoritas e sem doenças pelo meio."

Os Zu são conhecidos por trabalharem com o mais variado leque de músicos e bandas. O vosso próximo álbum contará com algum convidado?

Tenho a certeza de que vamos ter uns convidados, sim. Ainda é demasiado cedo para saber quem – nós vamos atirar um nome ao ar, dependendo basicamente daquilo que uma determinada faixa necessitar. Isso é uma das coisas mais excitantes, o facto de podermos partilhar uma série de coisas. É como uma grande orgia com todas as tuas pessoas favoritas e sem doenças pelo meio. É divertido e aprende-se bastante na maioria das vezes. Nós não somos músicos escolarizados. Portanto, conhecer uma série de gente e trabalhar com ela acaba por ser a nossa escola pessoal.

Vocês também adoram andar na estrada – os Zu costumam ter um calendário preenchido. O que é que vos dá o combustível para tocarem constantemente; e defines os Zu mais como uma banda ao vivo do que uma banda de estúdio?

Eu acho que há tipos de música que funcionam melhor ao vivo e há outras que funcionam melhor em estúdio. Eu adoro ouvir Bohren Und Der Club of Gore e Earth em casa, mas fico extremamente entediado quando os vejo ao vivo. Em simultâneo, adoro ver free music em concerto, como por exemplo o Peter Brötzmann, mas nunca ouviria os álbuns dele em casa. Eu creio que os Zu são o tipo de banda para se sentir ao vivo, mas isso é a minha opinião pessoal, claro. Para além disso, nós nunca tivemos orçamento para usar o estúdio como ferramenta. Seria muito interessante, mas é necessário dinheiro. Aquilo que costumamos fazer é ir para o estúdio, preparar as coisas e gravar durante dois/três dias. Depois, o dinheiro acaba-se e o álbum fica pronto.
Eu acho que recebo grande energia ao tocar a música dos Zu. A sensação que tenho quando tocamos ao vivo e o concerto corre bem compensa totalmente a parte árdua: as viagens longas, as saudades das pessoas que amamos, as noites mal passadas, etc.

"Acho que a música criativa é demasiado importante para se manter fechada num ghetto elitista."

Em breve, vocês vão tocar em Portugal, no Milhões de Festa, um festival a céu aberto. Vocês parecem ser uma banda que se adequa melhor a espaços fechados e pequenos, portanto o que podemos esperar dos Zu num ambiente festivaleiro?

Nós não temos qualquer problema em tocar em sítios grandes. Com o Patton, no Chile, nós actuámos para 17 mil pessoas e foi excelente. Também tocámos no Roskilde e noutros palcos enormes, portanto não é um problema. Adoro o facto de sermos uma banda capaz de se adaptar aos mais diferentes locais e espaços. Creio que somos dos poucos grupos que já tocaram tanto em festivais de jazz, quanto em grandes festivais de rock, sem esquecer anfiteatros de música contemporânea. Eu acho que a música criativa é demasiado importante para se manter fechada num ghetto elitista. Nos anos 70, havia grandes bandas a tocar para plateias enormes. Depois, tudo mudou. A pop ganhou… Que raio aconteceu? Foi a MTV? Madonna? A CIA? Seja como for, nós precisamos de mudar isso, a Lady Gaga não pode levar a melhor!

Massimo, o teu baixo tem um som tão distinto que há bastante gente à procura do equipamento que usas. Podes dar-nos umas luzes sobre isso ou o segredo é a alma do negócio?

Não é nada de especial, a sério. Um baixo muito bom, um amplificador potente, três pedais de distorção, cada um configurado de maneira diferente e um harmonizador para conseguir frequências que normalmente só uma guitarra me providenciaria – um instrumento do qual prescindimos.