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Entrevista Men Eater

"Se a banda não conseguir um novo disco com uma editora a subsidiar, este cd vai ser o último"

O PA conversou com Mike Ghost, o frontman dos Men Eater, em Coimbra.

“Acho que o Vendaval vai desaparecer, a seguir a este disco”

Por André Forte e Ana Beatriz Rodrigues 8 de Fevereiro, 2011

Foi entre risos e muita chuva, na esplanada – e posteriormente, nas escadas – do Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra, que o PA teve uma conversa amena com Mike Ghost, o frontman dos Men Eater. Numa altura em que a banda se prepara para lançar mais um LP, Miguel Correia de seu nome, guiou-nos entre aquele que será o terceiro disco do colectivo, sem esquecer a história e as estórias que se passaram até chegarmos a um dos nomes mais consensuais do panorama alternativo nacional.

Na verdade, os Men Eater não comem ninguém. Bem pelo contrário, de uma simpatia impressionante, são daquelas bandas que em palco nos deixam de queixo caído com a música que põem os amplificadores a gritar. Do sludge, ao doom, passando pelo post-rock, e no activo desde 2006, são dos nomes portugueses que nos continuam a deslumbrar.

Começando pelo novo álbum. Já têm um nome que se possa saber?


Há… [hesitante] Mas eu estou-me a conter para não dizer. Há algumas pessoas que já o sabem, mas não é suposto divulgar-se, ainda. É um nome muito óbvio, muito fácil.

Vai ser um disco homónimo? 


(Risos) Não, não. Isso era demasiado óbvio.

O lançamento está apontado para quando?


Nós esperamos que seja em inícios de Março, para cumprir a regra que nós criámos, de cada álbum ser lançado com dois anos exactos de diferença, até  porque oVendaval saiu em 2009.

"Acho que o Vendaval vai desaparecer, a seguir a este disco"

Do Hellstone para Vendaval já se notaram muitas diferenças. Houve algo que vocês procuraram mudar, deste o Vendaval para novo disco?

Eu acho que o Vendaval vai desaparecer, a seguir a este disco. O Hellstone é o primeiro LP, que caiu nos ouvidos de toda a gente, apesar de ser um bocado como um “baile de finalistas”, em que andávamos à procura de alguma coisa. Por isso, o Vendaval subiu a fasquia de maturidade da banda, mas este disco está muito acima dele e não perde o que foi feito no Hellstone. Se tiverem muita atenção, vão perceber que há imensas pitadas do primeiro álbum, só que está fundido no disco, não está muito assumido. 

No primeiro teaser que vocês divulgaram, não achas que essas pitadas de Hellstone se notam? 

Mais ou menos. Talvez mais na expansão mental, como nós lhe chamámos em estúdio. Este disco tem muita expansão mental, momentos em que parávamos para trabalhar e explorar partes de músicas.

Não tens medo que essa mudança afecte o público que vos segue?

Acho que as pessoas que gostavam muito do Hellstone são capazes de não gostar tanto deste álbum, talvez ainda mais do que não gostavam do Vendaval. Musicalmente, numa banda, nós fazemos aquilo de que gostamos. Talvez fosse uma mudança radical se começássemos a tocar merengue com distorção. (risos) Mas se fosse disso que gostássemos, era o que faríamos agora. Íamos perder muito público, mas íamos agarrar outro.

” [A mudança] nunca se trata de uma mutação, mas de um passo que a banda dá dentro dela própria”

Portanto, os Men Eater têm tido discos que são, sucessivamente, diferentes dos antecessores. Achas justo dizer que vocês têm fases?

Não. Eu acho justo dizer que nós funcionamos segundo o processo natural do “vibe” que a vida, enquanto banda, nos tem dado, por isso, nunca na vida iria pegar no Hellstone ou no Vendaval para tentar perceber o que fazer a seguir. [A mudança] nunca se trata de uma mutação, mas de um passo que a banda dá dentro dela própria. Nós perdemos dois elementos (saíram o baixista Jota e o guitarrista Azeitona), entraram outros dois (Sega, ex-Vicious Five, e Gaza, If Lucy Fell), e a composição do disco novo foi maioritariamente feita por mim, devido à situação.

No clip da First Season ainda aparecem o Azeitona e o Jota. Vocês actualizaram as vossas fotos promocionais, mas as pessoas ainda associam a imagem da banda ao que está no vídeo. Não notaste que se estranhou essa mudança?

Para ser sincero, não sei dizer. Até agora ainda ninguém mencionou isso, mesmo depois dos concertos. Há pessoas que dizem que estamos mais pesados, porque os membros são diferentes e tocam de formas diferentes…

Então, não sentes que a entrada de novos membros afectou a vossa sonoridade?

Tivemos de a adaptar. Não começámos do zero, mas fomos à escola todos juntos para nos conhecer. Acho que o Gaza é, agora, o único músico daquela banda. O Gaza sabe ler pautas. Só por isso. (risos) É um animal, sempre pronto para o que for e, ao vivo, nunca compromete nada. Depois, trouxe ainda uma composição de baixo que Men Eater nunca teve antes: agora é mais um instrumento e que está a dar muito à banda. O Sega veio dar um novo toque ao som e um ambiente de doideira controlada.

O Makoto Yagyu tem sido, desde sempre, o vosso produtor, em disco, porém são vocês que gravam tudo no mesmo estúdio de sempre e que conhecem bem. Procuram um conforto durante o processo de gravação, ou tentam torná-lo desconfortavelmente profissional?

[hesita um pouco] Muito sinceramente, nós ainda não mudámos o nosso processo por questões monetárias. Somos nós que fazemos tudo. E termos conseguido, no Hellstone, que o Chris Common fizesse qualquer coisa e que fosse masterizado pelo Ed Brooks foi muito bom. Se nós tivéssemos possibilidade para ir para outro estúdio, eu levava o Makoto na mesma, mas escolheríamos sempre a mudança de estúdio, certamente.

Porquê? E qual é o papel do Makoto, ao certo?

Em termos de composição, ele tem uma enorme força no que eu faço. Ele sabe exactamente o que eu procuro, eu sei a maneira dele funcionar e já quase não existem termos técnicos de gravação. Torna tudo muito mais fácil e, apesar de tudo, o estúdio tem condições muito boas para fazermos o que fazemos.

Men Eater acaba por ser, então, uma coisa muito vossa. Não há mais ninguém que se meta ao barulho, ali. Compõem e produzem vocês mesmos, o artwork é desenhado por ti…

Mas não é por orgulho, nem nada parecido; é mesmo porque torna tudo mais fácil. É como ires perguntar aos Tool porque é que eles não dão os vídeos para outras pessoas fazerem. Eu não sou nenhum artista ou designer, no que diz respeito à ilustração, mas, se nós podemos fazer as coisas, preferimos assim.

E agora com o Sega na banda, que realizou o vídeo da First Season, os vídeos vão passar a ser assinados por ele?

Os vídeos vão ter a mão dele, talvez na produção, mas não vai ser a sua equipa a fazê-los. Foi uma coisa que estabelecemos, e até é bom para ele, para não estar a confundir as duas coisas. Se eu estivesse a tocar e a filmar dava em maluco.

É uma situação que te parece difícil de mudar?

Nós sempre pagámos tudo o que fizemos. A única coisa que a editora tem feito [quanto à preparação dos álbuns] é pagar a fábrica. O dinheiro que vamos fazendo tem servido para saldar, mais ou menos, o que gastámos em estúdio. Se a banda não conseguir um novo disco – e falamos do próximo que se seguirá ao novo trabalho – com uma editora a subsidiar, este cd vai ser o último.

“Se a banda não conseguir um novo disco [...] com uma editora a subsidiar, este cd vai ser o último”

Mas isso é curioso, visto serem das bandas portuguesas, dentro do underground, mais conceituadas e com maior projecção a nível nacional.

Com todo o respeito ao povo português, se Men Eater fosse feito pelas mesmas pessoas mas nos Estados Unidos, ainda gostavam mais da banda. Eu falo por mim: não estou farto – se morresse agora, morria feliz, mas ia insatisfeito, porque não fiz metade do que queria fazer. Nós estabelecemos, a partir de meio do Vendaval, que se a banda tiver de acabar, que acabe lá fora. Vamos arriscar, pelo menos vamos tentar ir para fora. Nós queremos lançar do mundo para Portugal, não de Portugal para fora. Não se trata de manias, trata-se de ser isto que eu quero.

Conta-nos como é que surgiu a tourné europeia do Vendaval.

Graças ao que temos vindo a construir, neste caso eu e o meu irmão (Poli Correia dos Devil in Me), eu tornei-me amigo do Andrew Neufeld dos Comeback Kid e Sights & Sounds. Quando o Andrew veio gravar o disco de Devil in Me, começámos a falar e ele teve conhecimento de Men Eater. Decidimos que fazíamos a tour europeia com Sights & Sounds e eles começaram a marcar datas.

A digressão já contou com o Azeitona, com o Poli na guitarra, não foi?

Essa tour só aconteceu porque o Poli e o Gaza vieram, e ainda bem, porque foi fantástico. O Poli tem uma filha, o negócio dele, tem os projectos dele, uma vida ocupada. Abdicou daquilo tudo e, ainda assim, veio. Foi quase o nosso pai; é a maneira de ele ser e nós sentimo-nos bem. O Gaza também aceitou, o que foi perfeito. Ele era o baixista ideal para vir e fez a tour a cicatrizar uma operação na mão. Se eles não viessem, a tour nunca iria existir e eu, sei lá, dava um tiro no pé (risos).

Vocês são uma das bandas que mais atentamente seguimos desde o início do PA, e há uma pergunta que sempre tivemos vontade de vos fazer: como é que vocês começaram?

Foi na primeira edição do Resurrection. Eu tocava bateria em For the Glory, o Azeitona e o Sérgio (primeiro vocalista de Men Eater) tocavam em Black Sunrise e sei que o BB também veio. O festival foi no parque da cidade [Lugo], com um palco minúsculo, onde tocaram quatro bandas para cerca de 20 pessoas [acentua a ironia da questão]. Na altura estava a tocar uma banda de crust de Barcelona que nós já conhecíamos mais ou menos, os The Eyes. Entre nós sempre houve a piada de tudo o que é crust tem que ter cães. Como estavam uns cães a passar por nós, decidimos fazer uma banda de género e levá-los connosco. Definimos papéis, não levamos os cães (risos), e no primeiro ensaio escrevemos a Heartbeating Locomotiva.

O vosso nome, Men Eater, surgiu nessa altura?

O nome surgiu na viagem de volta da Galiza. O BB vinha com os Black Sunrise e eu com os For the Glory, e ainda antes de passarmos a fronteira de volta telefona-me a dizer que já tinha nome, apesar de eu mal me lembrar da brincadeira. Ficou Men Eater desde então.

Esta foi a vossa primeira banda fora do hardcore?

Na altura eu e o BB já tocávamos em Riding Pânico.

E como é que surge a participação do André Henriques dos Linda Martini na Lisboa?

Ele fazia parte de bandas que eu sempre admirei. Os Linda Martini, antes de serem Linda Martini, eram os Secret Show, com membros e pitadas de Shoal, uma banda que eu simplesmente adoro. Eram bandas cujos membros eu sempre conheci. A música tinha uma onda mais espacial e eu convidei-o para cantar e para escrevermos umas coisas e ele aceitou logo.

Essa é a única música que vocês têm em português. E logo Lisboa, a capital. Porquê?

A música chama-se Lisboa por ser a capital, que significa Portugal, para nós. Podíamos ter chamado Portugal à música, mas na altura nem nos lembrámos disso.

Daí ser cantada em português?

Se reparares na letra, a música fala de saudade (“Tenho o peito cheio de ti”). Foi Lisboa por ser algo que identifica Portugal, não é por bairrismo. A letra fala de estares fora, na estrada, e de teres saudades da tua cama, apesar de no dia a seguir já não te lembrares disso porque estás noutro sítio fantástico.

“Gostávamos de fazer um digressão pelos Estados Unidos”

Os Men Eater são uma banda que os promotores já reconhecem como uma aposta segura e vocês acabam por ser escolhidos para fazer muitas primeiras partes, como aconteceu mais recentemente com Torche. Vocês não se sentem bem nessa posição?

Já disse que não a certos concertos desses. Não por estar farto que me chamem para tocar, ou por estar farto de fazer suporte, mas porque há mais bandas. Não são as bandas de abertura que vendem os bilhetes, são as cabeças de cartaz. Por que não apostar noutras pessoas?

E, para quando uma banda internacional a abrir para Men Eater?

Isso já aconteceu! (risos) Os três concertos de Sights & Sounds em Portugal tiveram Men Eater como cabeças de cartaz.

Houve alguma banda para a qual tenhas gostado mesmo de abrir?

Eu gostei de abrir para todas as bandas com que toquei. Dá-me prazer, e digo isto de boca cheia, quando os membros de outras bandas são tão humildes quantos nós. Os Torche, por exemplo, revelaram-se pessoas mesmo super simpáticos e tivemos três dias muito porreiros.

Planos para o futuro, existem?

Gostávamos de fazer um digressão pelos Estados Unidos, já com álbum editado, vídeo e tudo isso. O plano para 2011 é não parar. Mesmo que tenha de sair, uma vez mais, dos nossos bolsos, v