"Não vejo como um objectivo, nem como uma barreira o cantar em inglês ou em português"
Noisev é a 'máscara' por trás de David Santos, cantautor de Lisboa. Em vésperas de actuar no Festival Silêncio, ao lado de nomes como João Peste ou Sérgio Godinho, o músico falou com o PA'.
"Os sentimentos, as melodias, o que nos vai na cabeça são coisas universais - não têm uma língua definida"

É, actualmente, um dos mais originais, criativos e, diga-se, populares projectos musicais dentro das nossas fronteiras. David Santos, mais conhecido como Noiserv, tem andado por Portugal (e não só) encantando por onde quer que passa, com os seus loops e os seus brinquedos. O seu estilo é único, o público abraça o projecto cada vez mais, e poderemos agora vê-lo no Festival Silêncio, juntamente com outros grandes nomes da nossa música, em Moradas do Silêncio – Homenagem a Al Berto.
És o único português no Festival do Silêncio que canta em inglês, e vais participar numa homenagem a Al Berto, um dos maiores poetas portugueses da nossa poesia. Ficaste surpreendido com o convite? Qual vai, exactamente, ser o teu papel?
O convite que me foi feito foi no intuito de eu construir algumas texturas sonoras, enquanto o actor Miguel Borges faria algumas leituras. Desta forma, nunca se pôs a questão de cantar em 'inglês', baseando-se a minha participação naquilo que de instrumental têm as minhas musicas. Fiquei, por isso, bastante satisfeito por compreenderem a transversalidade da minha música.
Sempre achei as tuas letras muito interessantes, no sentido em que pareces preocupar-te mais com as palavras assentarem na melodia do que exactamente com o facto de rimarem ou não. Começaste a escrever canções muito cedo? E como é o teu processo de escrita? Surgem primeiro as melodias e só depois as letras?
Acertaste! O facto de rimarem é-me completamente indiferente, as melodias surgem sempre primeiro, e, com elasm a(s) primeira(s) frase(s) da canção. Tudo o resto é uma pequena batalha para conjugar as palavras, que vão surgindo com a melodia previamente definida. Comecei a 'tentar' escrever canções por volta dos 16 anos, antes disso apenas a guitarra cantava!
"Sinto que o Fernando Pessoa, e todos os seus 'amigos', me influenciaram e influenciam bastante"
Tens alguma ligação forte à poesia portuguesa? Foi algo que te influenciou em novo?
Sinto que o Fernando Pessoa, e todos os seus 'amigos', me influenciaram e influenciam bastante. Há uns 10 anos atrás, não conseguia passar um dia ser ler uns quantos poemas dele, muitas vezes tinha de os repetir ao longo dos dias! Era quase como uma forma de acordar para o dia que aí vinha!
Como alguém que acompanhou a tua carreira desde o seu início, fico mesmo muito feliz a ver-te crescer tanto. Sentes esse crescer de popularidade, hoje em dia? E até que ponto é que isso te afecta?
Sinto que cada vez mais pessoas conhecem o meu trabalho e gostam dele. Mas, por outro lado, ao ter sido um processo longo de crescimento, sinto que me fui sempre preparando para o que vinha a seguir, e dessa forma fui conseguindo que nunca me afectasse de forma negativa, podendo usufruir sempre do prazer de sentir que o que faço com muito prazer é reconhecido por quem ouve.
Com esse crescimento tem vindo também a possibilidade de trabalhar em projectos cada vez mais variados. Trabalhaste na banda-sonora de José & Pilar, por exemplo, e agora tens esta participação no Festival Silêncio. Achas que projectos assim, coisas diferentes do normal, te ajudam a crescer e influenciam o que poderás vir a trabalhar no futuro?
Acho que sim! As diferentes perspectivas que se vão ganhando nos diferentes projectos dão-me, acima de tudo, uma maior versatilidade que poderá ser crucial em todos os trabalhos futuros. Com cada projecto em que se participa ganha-se sempre algo, é sempre mais um degrau para a enorme 'escadaria'!
JP Simões, Sérgio Godinho, Rui Reininho... grandes nomes da nossa música, e agora encontras-te lado a lado com eles, numa actuação. Que tal é o sentimento de estar em palco com estes artistas?
Neste caso, não será uma interacção directa com eles, pois farei uma parceria com o actor Miguel Borges, e essa parceria é, por sua vez, incluída no mesmo festival. Independentemente disso, é um orgulho e um prazer enorme poder partilhar o espectáculo com esses músicos. É daquelas coisas que não se conseguem explicar por palavras, é um sentimento de felicidade, orgulho e também de responsabilidade!

Fizeste até agora uma única música em português: Palco do Tempo, para a banda-sonora de José & Pilar. É algo em que voltaste a pensar fazer entretanto?
Já voltei a pensar nisso e, neste momento, tenho alguns rascunhos em inglês e outros tantos em português, é uma questão de perceber como o tempo os vai organizar. Não vejo como um objectivo, nem como uma barreira o cantar em inglês ou em português: os sentimentos, as melodias, o que nos vai na cabeça são coisas universais - não têm uma língua definida.
Planos para o futuro... Um novo disco? Digressão com os You Can't Win, Charlie Brown?
Isso tudo! Novo disco de Noiserv e digressão com os You Can't Win, Charlie Brown! Mais uma vez, o tempo irá definindo a ordem dos acontecimentos!



