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Milhões de Festa 2014
Entrevista Black Bombaim

"O Titans exigiu muito mais de nós"

Os Black Bombaim revelam como surgiu a ideia de convidarem nomes como Adolfo Luxúria Canibal e Steve Mackay para participar no novo álbum e como é que este foi processado, em comparação com o registo de estreia.

"Nós chamámos, na brincadeira, ópera-rock ao Titans – isso pegou porque o disco é grande, é um álbum duplo de 70 e tal minutos. As nossas músicas continuam a ter 20, 17, ou 15 minutos, e a base é a mesma"

Por André Forte 6 de Abril, 2012

Os Black Bombaim são, acima de tudo, a maior ausência recente nas entrevistas do PA’. Depois de termos conversado com o trio barcelense, no início das nossas aventuras e desventuras, em 2008, deixámos escapar a edição de um disco, um split com os britânicos The Notorious Hi-Fi Killers e alguns concertos em terras de sua majestade. Agora, para colmatar a falha, apresentamos uma conversa de duas partes com Tojo Rodrigues, baixista e senhor do groove da maior banda de stoner psicadélico português.

A primeira parte da conversa é dedicada ao novo álbum Titans – que, aproveitamos para anunciar em exclusivo, os Black Bombaim vão apresentar ao Passos Manuel do Porto a 4 de Maio, um dia antes de o levarem à ZDB em Lisboa. A primeira parte do concerto será assegurada por Jorge Coelho, que lança este mês e em vinil, pela Lovers & Lollypops, Arca de Água, o seu novo registo de longa-duração. A pós-festa fica nas mãos de DJ Lynce.

O novo álbum chama-se Titans, é um disco duplo, com montes de convidados. É tudo em grande? Procuraram alargar as fronteiras que definiam Black Bombaim?

Em certa medida, sim. Nós nunca nos sentamos para decidir como é que vamos fazer as coisas a seguir, não traçamos metas. Neste disco houve planeamento ao nível de ser de estranhar, ainda que à medida que avançávamos com o processo. Já tínhamos as músicas prontas para gravar e só aí é que surgiu a ideia de convidar [músicos de que gostamos], por exemplo, e só depois de vermos que tínhamos músicas a mais para um só disco é que decidimos fazer dois. A ideia foi crescendo.

Agora com mais 70 minutos de música, começam a ter material para concertos ainda mais longos. Já se pode dizer que têm material para estender dos 50 para os 70 minutos?

Ao vivo não podemos tocar tudo, nem vamos tocar. Há partes ali que só funcionam em disco, creio. Nós queremos continuar com um concerto não muito grande, para não se tornar maçador. Queremos continuar com um concerto aceso, rápido, com o máximo de energia possível. Não pode ter tantas flutuações quanto tem o disco.

A nível de disco, o que é que achas que o caracteriza como um novo disco de Black Bombaim?

Pondo já de parte a questão dos convidados, que isso é óbvio, diria que é o som. Está muito diferente. O primeiro disco foi gravado na sala de um amigo nosso, que também é produtor, com os microfones que ele tinha. Desta vez fomos para um estúdio muito conceituado [NR: Meifumado], onde gravaram os We Trust, por exemplo, [à procura] do melhor som possível. Cada um de nós usou dois amplificadores sempre ligados e o som acabou por ficar muito mais cheio. Em si, o som foi pensado ao detalhe, ao contrário das músicas, porque nós tocamos sempre tudo ao vivo.

O processo de gravação foi, então, o mesmo: os três a tocarem live on tape.

Sim, foi live, mas não foi para fita. Estava avariado. Os testes de som foram feitos em fita, ainda. Se calhar nós é que estragámos aquilo (risos).

Além do som e dos convidados, cresceram em mais aspectos?

Há um amadurecimento: a capacidade de conseguirmos relaxar enquanto tocamos e de darmos dinâmica à música, para que não seja sempre a 200 à hora. Há partes em que a intensidade decai. É possível ouvir as malhas de cacete dos Meshuggah durante uma hora seguida? Se calhar, a cabeça fica um bocado cansada. Se nós também estivermos a tocar durante uma hora a abrir, as nossas cabeças e os nossos corpos também pedem flutuações. Neste disco há mais disso.

E tens receio de que isso não resulte tão bem ao vivo?

Há partes em que a música abranda demais e que não vai ser hábito tocarmos. Queremos dar um momento para o pessoal relaxar. No início, tem de ser logo aquela martelada na cabeça, para pegar no touro pelos cornos. Ao vivo é assim, e no disco também. Mas depois dar-lhes folga, para as pessoas pensarem que podem fugir, quando na realidade não podem, porque vamos atacar outra vez.

"Nós não escolhemos os convidados à toa. Além de muitos serem nossos amigos, outros são pessoas que admiramos e em quem tínhamos total confiança"

Há quem lhe chame ópera-rock – vocês escreveram canções, ou continuam os Black Bombaim de sempre, que fazem um riff eternamente como o Al Cisneros profetiza?

Completamente. Nós chamámos, na brincadeira, ópera-rock ao Titans – isso pegou porque o disco é grande, é um álbum duplo de 70  e tal minutos. As nossas músicas continuam a ter 20, 17, ou 15 minutos, e a base é a mesma. Aliás, este álbum começa onde o Saturdays & Space Travels acabou.

O Titans não altera, então, a forma como os Black Bombaim funcionam?

Só se vires pela perspectiva dos convidados. A estrutura é basicamente a mesma. Temos algumas músicas mais lentas e mais calmas. Essa é, provavelmente, a maior diferença: não estamos 70 minutos sempre a dar-lhe, temos de acalmar um bocadinho. Mas continuamos a ser nós que fazemos as coisas todas – não fizemos as músicas para os convidados. Eles entram para cumprir os espaços que nós deixámos nas músicas, porque algumas destas músicas já estavam feitas há muito tempo, já as tínhamos quando estávamos a apresentar o Saturdays & Space Travels.

Sentes que este disco é mais vosso do que o Saturdays & Space Travels?

O primeiro disco foi fruto de uma jam. Estava tudo estruturado, mas não sabíamos quando é que tínhamos de fazer uma mudança na música, era tudo decidido enquanto estávamos a tocar. Para este disco tivemos de ensaiar muito mais, exigiu muito mais de nós. Nós depositámos, além de confiança, muito de nós. Assim, acho que se pode dizer que é um disco mais Black Bombaim.

Assim sendo, vocês sentiram-se à vontade para enviarem as gravações para os quatro cantos do mundo e dizerem aos vossos convidados para fazer as coisas como achassem melhor?

Nós não escolhemos os convidados à toa. Além de muitos serem nossos amigos, outros são pessoas que admiramos e em quem tínhamos total confiança. Nós dizíamos-lhes que tínhamos as coisas planeadas para tocarem daqui ali, mas que podiam alongar-se e fazer como quisessem. Só pedíamos para mandarem mais do que um take. Editar as partes deles era o nosso trabalho, depois.

Na Amesterdão, dos Mão Morta, o Adolfo Luxúria Canibal diz que eles tinham Black Bombaim. Agora vocês têm o Canibal. Como é que surgiu a ideia de o convidar? Sei que o nome da vossa banda surge dessa música. Isso pesou na decisão?

Também, sim. A ideia dos convidados é nossa e do Fua [da editora Lovers & Lollypops] e surgiu numa noite de copos. As nossas ideias surgem sempre assim. Estávamos com os Crystal Antlers, quando eles tocaram no Porto, e arrancámos com eles, porque tínhamos desenvolvido uma boa relação. Nós estávamos sempre na treta com o Damian [Edwards, percussionista] e a ideia dos convidados surgiu com ele, porque nós, já com bastantes copos na cabeça, decidimos que o íamos convidar para o próximo disco e que íamos dar o nome dele a uma música.

Curiosamente, o Damian nem aparece...

Pois, não. Mas dois dias depois, já depois de ter passado a ressaca, acordámos para a realidade e apercebemo-nos de que o Damian não encaixava muito bem, por muito fixe que fosse. No entanto, a ideia de convidar pessoas não era má. Se fizermos discos sempre como o Saturdays caímos na monotonia. Decidimos mudar isso, sem entrar naquele termo polémico do disco conceptual, que me dá sempre vontade de rir. Alguns nomes surgiram com o tempo, outros foram óbvios. Mas surgiu a questão de alguém cantar – e para dar voz só podia ser uma pessoa. Depois o Fua encontrou-o no Porto, falou-lhe e ele adorou a ideia.

O Adolfo é um fã de Black Bombaim?

Agora, sim. Ele já tinha ouvido falar da banda, não sei se conhecia. Diz que gostou muito da música e fez uma letra ao estilo dele.

"Nenhuma das músicas estava a 90 por cento quando foi para os convidados, para que eles pudessem pôr lá os 10 que faltavam. Nós mandámos a música 100 por cento e eles puseram-na a 110"

O Tiago Jónatas já tocou várias vezes convosco e agora participou no disco. Nunca pensaram em adicioná-lo como quarto membro?

Sim, ele já é membro honorário da banda. Nós adoramos o que ele faz e achamos que seria muito fixe. No entanto, ele ser de Lisboa não facilita. Sempre que vamos lá tentamos que ele toque connosco e às vezes tentamos que ele venha cá para ao Porto, também.

O Tiago toca sempre theremin, convosco?

Aquilo que ele faz já quase nem é theremin. Ele modela e processa o som de uma maneira que aquilo de theremin já tem pouco, mas, sim, é isso que toca. No disco, usou mais coisas. Ele também é baixista e, no projecto novo dele, Surya Exp Duo, ele também mexe nas electrónicas. Mas é difícil. Black Bombaim somos nós os três. Mas não digas esta parte, para ele não ficar triste (risos).

Cada um dos convidados tinha um propósito. Vocês sabiam o que é que cada um deles ia trazer para as músicas e tinham isso planeado? Fizeram isso para eles complementarem o que vocês não conseguiam fazer, ou para dar uma dimensão extra?

Depois de as músicas estarem concluídas, sim, sabíamos exactamente o que é que cada um deles ia fazer. Mas nunca procurámos completar lacunas – a ideia era transcender o som que tínhamos. Demos espaço para cada um deles fazer o que sabe melhor, como quisesse, e isso só iria acrescentar à música. Nenhuma das músicas estava a 90 por cento quando foi para os convidados, para que eles pudessem pôr lá os 10 que faltavam. Nós mandámos a música 100 por cento e eles puseram-na a 110. Na Rússia seria a 140 (risos).

Quando é que Titans leva a sua soberba para os nossos palcos? Podemos contar convosco no Milhões?

Não sei se vamos ao Milhões, por acaso. Mas para Portugal estamos a planear qualquer coisa para 4 e 5 de Maio, para uma apresentação oficial do disco. Vai ser fixe.

Quando é que Titans sai?

Contamos tê-lo cá fora em meados de Maio.