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Entrevista DJ Ride

"O netaudio, nos tempos que correm, é obrigatório"

Actua hoje, no derradeiro dia do Festival NetaudioLx. Na próxima semana, dia 14, assume a curadoria no Musicbox, para a quarta sessão do Rock It! #4. Senhoras e senhores, DJ RIDE.

"Por tudo o que aconteceu nestas últimas semanas, o scratch em Portugal nunca esteve tão bem como agora"

Por António M. Silva e Ana Beatriz Rodrigues 7 de Janeiro, 2012

Referência na música urbana, nome mundial de Scratch, Ride, 25 anos, dá cartas na mistura de diferentes sonoridades. A imaginação, a segurança do seu papel e o conhecimento na área conferem-lhe, cada vez mais, um lugar assente em Portugal e pelo mundo. O PA' falou com este caldense sobre o passado, o presente e o futuro de DJ RIDE. O resultado fica à vista:

Cinco títulos internacionais nos últimos cinco anos de carreira (sendo que o último é mesmo o de campeão mundial de Scratch) é um currículo e pêras. Isto dá-te algum tipo de pressão extra ou acaba por funcionar como um impulso para ti?

Sem dúvida, é uma pressão acrescida, mas adoro esse estímulo extra. Acabo por canalizar toda essa energia no meu trabalho para ainda me concentrar [melhor] e focar-me mais naquilo que é importante.

Há exactamente quanto tempo e como é que começaste no turntablism?

Comecei a partir do momento em que comprei o meu primeiro gira-discos, em Setembro de 2002.

"Nunca ninguém tinha posto guitarra portuguesa numa final do mundial de scratch "

O netaudio tem sido um bom ponto de partida para ti?

Sim, sem dúvida. Mesmo no começo, com as minhas primeiras ''maquetes'' e ''demos'', disponibilizava [tudo] na internet e isso fez com que mais pessoas conhecessem o meu trabalho. Não vivo sem a edição física também - sobretudo no meu formato musical preferido, o vinil - , mas o netaudio, nos tempos que correm, é obrigatório e, provavelmente, a ferramenta mais rápida para chegares ao teu público.

Como já se falou, ganhaste, recentemente, o título de Campeão Mundial de Scratch (juntamente com Stereossauro, enquanto Beatbombers). Muito directamente, o que é que levaram de realmente único para a Polónia que vos permitiu sair de lá com o título na mão?

Muito sinceramente, pensando em ''único'', se calhar o set do ano passado foi mais fora de tudo o que já alguma vez foi feito em campeonatos, devido ao remix do Stereossauro dos Verdes Anos [tema de Carlos Paredes] e à maneira em como tocámos o set. Nunca ninguém tinha posto guitarra portuguesa numa final do mundial de scratch. E a forma como construímos o set - 90% é tudo feito ao vivo, sem loops ou sequências - colocou-nos um bocado numa categoria à parte, no bom sentido. Este ano, deixámos as raízes portuguesas de parte, e concentrámo-nos mais na energia, na técnica, na dinâmica e aproveitámos também todo este buzz [que] há em volta de sonoridades mais urbanas, [como o] dubstep, a drum e misturas com hip-hop e electrónica. Essa foi a nossa ''fórmula'' para ganharmos: muita energia como, aliás, é facilmente visível nos videos que já circulam por aí. 

Achas que vai ajudar a que em Portugal se olhe definitivamente para o Turntablism, Scratch e derivados como um género musical?

Tudo ajuda, mas, sinceramente, acho que, actualmente, já há uma visão global do Turntablism diferente [da que havia] quando comecei, há 10 anos atrás. Se calhar, falta mais exposição, mais eventos, só existem dois vinis de scratch tugas, que foram produzidos por nós (180 GR e Tuga Breakz). Mas, por tudo o que aconteceu nestas últimas semanas, o scratch em Portugal nunca esteve tão bem como agora.

"Há um lado do scratch que afasta muita gente, que é o da dedicação e o do espírito de sacrifício"

Por falar nisso, como é que vês o género em Portugal? Há condições para crescer, motivação para que os mais novos comecem a gravar?

Sim, mas podíamos ser mais e mais unidos. Principalmente, porque ainda há quem vá para os campeonatos com uma atitude pretenciosa, e o DMC e o IDA são, provavelmente, os eventos onde se juntam mais Turntablist's. Afinal de contas, tem de se encarar a competição de uma maneira saudável, e é sempre um bom pretexto para trocar feedbacks, ideias, impressões, etc. Há, também, um lado do scratch que afasta muita gente, que é o da dedicação e o do espírito de sacrifício. Quem gosta de scratch a sério, fica horas, meses, anos a treinar as suas técnicas e flow até sair do quarto. E isso não é, propriamente, a coisa mais aliciante do mundo, quando comparado, por exemplo, com a ''club scence'' ou com o trabalho de um dj mais ''convencional''.

Onde é que tu, enquanto DJ Ride, vais buscar inspiração para os teus discos? Consegues imaginar um tema de cabeça ou andas com um bloco de notas a apontar tudo?

Calculo que não seja um processo tão linear como compor com guitarras e baterias… [Mas, respondendo à tua questão], ambas as coisas: anoto muita coisa no meu Moleskine, outras coisas são ideias na cabeça ou inspirações de outras músicas e, provavelmente, a maior das influências é o diggin e o sampling. Nunca consigo sintetizar muito bem a parte do processo criativo, mas não é muito diferente de uma banda ''normal'', digamos assim. Começo quase sempre com a bateria, depois baixo, melodia, ou, às vezes, tudo ao contrário.

Tens algum tipo de formação musical?

Sim, aprendi teclado e tive teoria musical com 12 anos, mas não estudava muito, na altura. [risos]

"Essas colaborações com bandas têm sido uma experiência incrível"

Sei que já tocaste ao vivo com bandas (lembro-me do concerto com PAUS, por exemplo) e que te apresentas regularmente a solo, por isso pergunto-te o que achas mais desafiante: aparecer em palco com uma banda, acompanhado de outro DJ ou sozinho?

Qualquer dos formatos é desafiante, mas tocar as minhas próprias músicas - ou temas feitos com outros músicos - tem um gosto especial, sem dúvida. Essas colaborações com bandas têm sido uma experiência incrível. Também gosto muito de fazer live act's sozinho e, provavelmente, agora a minha maior vontade é ainda tocar mais com Beatbombers.

O que é que podemos esperar do DJ Ride no futuro? Tens alguma coisa na calha?

Álbum novo em 2012, com muitas novidades e participações, e, provavelmente, o meu projecto mais ambicioso no bom sentido: PIXEL TRASHER, um formato em que vou estar a controlar audio e video ao mesmo tempo, a fazer scratch em video, tudo real time, live... E Beatbombers, e focar-me nos meus próximos dj set's.

Por último, a minha curiosidade vai ser mais forte e tenho mesmo que te perguntar a tua opinião sobre uma coisa. Nos idos de 90, toda e qualquer banda de nu-metal que se prezasse tinha um DJ no seu line-up, como o DJ Kilmore que militou nos Incubus, por exemplo. Estás familiarizado com o trabalho deles?

Sim, conheço o trabalho deles e até posso dizer que a maioria parou um bocado no tempo no que diz respeito a técnicas e musicalidade. O querer ter um DJ a acompanhar a banda, penso que veio muito