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Entrevista dUASsEMIcOLCHEIASiNVERTIDAS

"Ser músico lá fora é considerado uma forma de arte e uma escolha profissional"

Actuam hoje, em Lisboa, no âmbito do Festival NetaudioLx. O PA' foi falar com este colectivo que abraça tanta coisa musicalmente e o resultado foi surpreendente.

"Ultimamente, começámos a definir-nos como rock troglodita ou punk futurista!"

Por António M. Silva 5 de Janeiro, 2012

A primeira vez que vos ouvi, veio-me de imediato uma palavra à cabeça: anarquia. Não por terem um som confuso, mas antes pela quantidade de géneros que a vossa música abarca. Calculo que o vosso processo de criação seja pouco ortodoxo…

O processo de criação parte de uma ideia criada num improviso na sala de ensaios ou de alguma melodia que alguém traga de casa... Após termos uma ideia de onde estamos ou queremos chegar, começamos a acrescentar camadas sonoras com os vários instrumentos e se a música estiver a ficar demasiado quadrada, procuramos um "twist" para criar alguma estranheza na sonoridade! Ultimamente, começámos a definir-nos como rock troglodita ou punk futurista!

Existe uma fonte de inspiração indispensável?

Mais do que influências de algum tipo de som específico, temos um gosto muito grande pelas bandas DIY (“do it yourself”) dos anos 70/80/90, que sozinhas, com ajuda dos amigos e com muita perseverança, conseguiam lançar álbuns, tocar e organizar concertos e, se calhar mais importante que tudo, acreditar no que faziam. Diria que essa é a nossa maior influência!

Enquanto banda já passaram muito tempo na estrada, quer em Portugal quer no estrangeiro. Existem muitas diferenças entre o nosso país e outros?

Até agora já demos cerca de 175 concertos, sendo que mais de um terço foram fora de Portugal... As principais diferenças que encontrámos nos outros países foram uma maior curiosidade e receptividade por parte do público e um respeito maior por parte dos promotores de concertos. Ser músico lá fora é considerado uma forma de arte e uma escolha profissional e o reflexo disso é toda a dinâmica como somos tratados, desde o primeiro contacto até à despedida no dia seguinte. Para nós, é mais fácil encontrar concertos fora de Portugal e as condições que nos oferecem também são melhores. Só não tocamos mais no estrangeiro porque as digressões exigem um enorme trabalho de planeamento e muitos meses de antecedência...

"As bandas de hoje podem fazer tudo o que antes só era permitido aos grandes da indústria musical e isso é, de certeza, uma coisa boa"

Dirias então que, no nosso país, sentem falta de apoio (e com isto digo salas, público, editoras) para que uma banda como vocês continue motivada a seguir em frente?

Em Portugal, quase não existem apoios para bandas do nosso género, que se movem em meios mais alternativos. Ao contrário de outros países, não existe um circuito de salas e editoras e o público em geral parece não ter interesse em descobrir música nova. Mas isso só nos dá mais motivação para continuar tanto com os dUASsEMIcOLCHEIASiNVERTIDAS, [bem] como com a Associação Terapêutica do Ruído!

Já vos apeteceu emigrar, por exemplo?

Já pensámos algumas vezes em emigrar, mas em vez disso preferimos tentar fazer com que as coisas mudem um pouco por aqui...

Os dUASsEMIcOLCHEIASiNVERTIDAS editam regularmente através de netlabels, pelo que vos pergunto: as netlabels e a internet em geral são o melhor espaço para uma banda crescer?

A internet está a mudar o mundo e a forma como as pessoas têm acesso à informação, [logo] achamos que, de certa forma, essa liberdade é boa. Podemos escolher o que queremos, seja em termos musicais ou em termos do que queremos saber sobre o que se passa no mundo - principalmente se isso não for adulterado pelos grandes donos do mundo! As bandas de hoje podem fazer tudo o que antes só era permitido aos grandes da indústria musical e isso é, de certeza, uma coisa boa!

O que é que vos levou a assinar pela Enough Records?

Nós não assinámos pela Enough Records, temos uma parceria que funciona na permissa da palavra. Conhecemos o Filipe Cruz (ps) em 2008, num concerto que demos no Porto, falámos um pouco e ele mostrou interesse em lançar os nossos trabalhos. Em meados de 2009, fizémos o primeiro lançamento pela Enough do nosso segundo EP (intitulado II) e, daí para frente, começámos sempre a disponibilizar os nossos trabalhos gratuitamente na Enough, uns meses depois de sairem em edição física.

Vocês são também responsáveis pelo Festival Terapêutico do Ruído. Como é que ele surgiu e até que ponto é que ele reflecte ou não a banda?

O Festival Terapêutico do Ruído surgiu de uma proposta feita pelo Musicbox, na sequência das actividades desenvolvidas pela Associação Terapêutica do Ruído (ATR) ao longo dos últimos anos... A ATR é uma espécie de gémeo siamês dos dUASsEMIcOLCHEIASiNVERTIDAS (dSCi) e surgiu com o intuito de organizar concertos dentro do espírito DIY. Primeiro como necessidade - já que precisávamos de arranjar concertos para nós - e depois como prazer, porque queríamos que outras bandas e músicos estrangeiros que se movem nos mesmos circuitos tivessem a oportunidade de tocar em Portugal, coisa que, de outra forma. não aconteceria. Por isso, a ATR e o Festival Terapêutico não só reflectem os dSCi, como são parte integrante dos mesmos.

"A situação de Portugal está como o golf, é só para alguns e a 6% de IVA"

Recentemente participaram em manifestações quer em Lisboa, quer em Setúbal. São uma banda política ou simplesmente com gosto pela cidadania e o activismo?

Participámos na manifestação de dia 24 de Novembro em Lisboa, onde tocámos numa carrinha de caixa aberta com os nossos amigos Focolitus, S for Seward e Mário Trovador. Já tocámos também em vários eventos de beneficiência, mas não nos consideramos uma banda politica.

Como é que olham para a situação social de Portugal, actualmente?

Portugal está como o resto do mundo, envolto num manto de obscuridade, onde os poderosos fazem o que querem e bem lhes apetece sem sofrerem represálias ou qualquer tipo de castigo! Pouco interessa que tipo de governo temos, os efeitos, as decisões e as consequências beneficiam uns, enquanto que outros são deixados na miséria. A situação de Portugal está como o golf, é só para alguns e a 6% de IVA.

Posto isto tudo, vamos directamente para aquilo que todos queremos saber. Que podemos esperar de vocês no futuro?

Brevemente, vamos editar em parceria com algumas editoras portuguesas e italianas o nosso primeiro álbum em vinil, que foi gravado em Agosto passado e que se vai intitular 4, já que é a nossa quarta edição, depois de dois EPs e uma cassete. E, no final de Março, partiremos para nova digressão europeia (a nossa quinta) e, se tudo correr bem, só voltaremos a meio de Junho. Depois disso veremos, mas ideias não faltam!