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Milhões de Festa 2014
Entrevista Phaedra

"Se és um artista, tu quase que nunca descansas"

Ingvild Langgard apresenta-se, hoje, em estreia e data única, no portuense Café Au Lait, pelas mãos do bodyspace.net.

"Encaro Phaedra como uma soma de mim própria, da minha música e da constelação dos músicos que trabalham comigo"

Por Ana Beatriz Rodrigues 14 de Abril, 2012

A unicidade de Phaedra não vem do mito, nem, tampouco, das suas influências. Vem de uma só pessoa: Ingvild Langgard, menina das mil e uma artes, que é atraída pelo negro, pelo belo e pela vida, no geral. Esta norueguesa -  uma espécie de caixa de pandora - conta, nas linhas que se seguem, as letras que compõem o seu diário artístico, a sua inclusão na prestigiada Rune Grammofon e desvenda, até, o véu sobre o seu próximo capítulo musical.

Do meu ponto de vista, a tua música é muito negra, apesar de a pintares com tons outonais. Como é que equilibras estas duas ambiências: a beleza do som e o grotesco dos títulos das canções (por exemplo, Death Will Come, ou The First To Die)?

Essa é uma pergunta interessante. Para mim, a música que sempre me tocou mais profundamente cá dentro é aquela que equilibra a ponta da beleza com algo que a contraste, algo negro, ou, sim, mesmo grotesco. Esse aspecto torna tudo muito mais interessante. Então, num certo sentido, creio que procurei isso nos nomes das minhas canções: a combinação dos vocais líricos – ou até naïves, por vezes – com as letras pelejadas de negrume.

Phaedra é o teu alter-ego e suponho que derive da mitologia grega. Então, questiono-me sobre o porquê de teres escolhido esta persona para o nome do teu próprio projecto…

Sempre quis ter uma figura ou outro nome para o meu projecto musical que fosse diferente de mim enquanto pessoa e de Phaedra. Isto porque encaro Phaedra mais como uma soma de mim própria, da minha música e da constelação dos músicos que trabalham comigo. A escolha desta personagem prende-se com diversas razões: [primeiro] porque tem um som amoroso, [e segundo] porque significa algo como “o brilhar de uma luz sob o mundo”. Eu gosto, realmente, disso. Depois, interpreto o carácter fantástico de Phaedra como triste e solitário, embora não haja assim tantos mitos à volta dela, o que acho perfeito, dado que me permite, por meu turno, criar os meus próprios mitos à volta deste nome, quase inventando uma nova mitologia no meu caminho.

"Quando comecei a escrever canções, nunca mais houve maneira de parar"

Tocas vários instrumentos. Como é que o som entrou na tua vida?

A música sempre desempenhou um enorme e importante papel na minha vida, desde que eu era criança. Cresci a ouvir, permanentemente, diversos tipos de som – underground e indie, maioritariamente -, mas também música clássica e folk, em várias maneiras. A minha educação vem da Academy Of Fine Art, onde comecei a trabalhar imenso com o som, instalações sonoras e gravações de campo. Interessa-me todo o tipo de som… Tal como me interessam os instrumentos. Quando comecei a escrever canções, nunca mais houve maneira de parar.

O teu primeiro LP, The Sea, foi lançado com o selo da Rune Grammofon. Quando e como se iniciou este laço?

Quando comecei a fazer o disco, não tinha ideia nenhuma por onde o iria editar. Eu e o Froder Jacobsen, co-produtor, queríamos compor, primeiramente, todo o registo e só enviá-lo, posteriormente, para as companhias discográficas. A Rune Grammofon foi a única para a qual enviámos e, quando eles quiseram o disco, nem nós quisemos procurar mais, [porque esta] sempre foi a minha editora favorita. É uma companhia independente e pequena, que só tem boas edições no seu catálogo. Vários músicos e artistas que eu respeito estão lá, como Jenny Hval, Susanna Wallumrød, Deathprod, Maja Ratkje and Motorpsycho. Esta é uma editora que oferece total liberdade artística e que encoraja os artistas a desenvolverem-se e a arriscarem, se o seu trabalho estiver à altura. Por isso, espero trabalhar com eles durante muito tempo.

The Sea é o primeiro capítulo de uma trilogia. Que estórias é que nos queres contar, no futuro?

Sim, é uma trilogia conceptual, então irei fazer mais dois discos que explorem a fundo este conceito. Existe um narrador ténue criado, que canta sobre várias experiências, como se fosse uma viagem. O conceito vem, então, de diferentes histórias, vivências e atmosferas, que se enquadram na mesma linha narrativa. Para mim, é importante que cada canção surja primeiro, não quero forçar nada, e é isso que se enquadra na concepção. O próximo álbum chamar-se-á The Night e irá incluir algumas novas directrizes na minha música, igualmente. Haverá mais bateria, mais baixos negros e até mesmo mais canções com upbeat. Estes temas contarão estórias da noite e de viagens pelo submundo…

Mas, afinal, qual é a identidade por trás de The Sea e de Phaedra, mesmo?

O The Sea começou por ser um punhado de canções que lidavam, claramente, com alguns temas delicados, como a morte, o arrependimento e o ultrapassar algumas alturas mais complicadas. Concomitantemente, muitas destas canções carregam em si um sentimento aquático, ou flutuante. No que diz respeito a Phaedra, nem toda a música que faço encaixa em “Phaedra music”. Contudo, quando existe uma combinação de elementos folk e etéreos, um pouco de psicadelismo com algum soul e blues old school, então, geralmente, é uma canção de Phaedra.

"Se algo for extremamente aborrecido, isso também pode ser uma inspiração"

Como é que funciona o teu processo criativo?

Às vezes, funciona sempre. Se és um artista, tu quase que nunca descansas. Quando ouço novas músicas – especialmente, coisas que me atinjam, ou que vão, directamente, para o coração -, começo, imediatamente, a compor as minhas próprias linhas. Então, vêm novas canções, que se desenvolvem e que evoluem. Ou, se algo for extremamente aborrecido, isso também pode ser uma inspiração [risos]! Pode ser um filme, ou uma exposição de arte, ou mesmo algo completamente vulgar e pequeno. Contudo, o processo inicia-se, maioritariamente, quando eu apenas toco um instrumento, como se o instrumento por si próprio me concedesse o início de uma canção. Existem resultados muito diferentes a sair de um trabalho com um piano, com uma guitarra, ou com uma arpa. Por vezes, nem é a canção em si. É uma imagem, ou uma história.

Tens uma voz belíssima. Alguma vez tiveste lições de canto?

Bem, obrigada! Sempre cantei imenso para mim mesma e, quando estava na adolescência, ingressei em aulas de canto de música clássica - Beethoven e Grieg, principalmente. Contudo, penso que o treino vocal mais importante de todos tem sido o cantar [temas de] outras vozes que adoro e que admiro, como Billie Holiday, ou Elizabeth Fraser (Cocteau Twins), David Sylvian, e, acima de tudo, Kate Bush.

Como é a vida de uma singer-songwriter em Oslo? Sentes dificuldades na internacionalização da tua carreira?

Viver em Oslo é bom, porque é uma cidade tão pequena, que tu quase sabes tudo o que se lá passa. Sinto-me uma sortuda, porque também trabalho com arte e componho música para dança contemporânea. Isso oferece-me muito para fazer, ou seja, estes últimos anos têm sido incrivelmente ocupados. E uma das coisas boas em estar na Rune Grammofon é isso mesmo: apesar de ser uma pequena editora norueguesa, as suas edições recebem uma atenção internacional considerável. Tenho ficado sem palavras com a recepção que o meu disco tem tido fora de portas, com críticas maravilhosas (incluindo das maiores revistas em Inglaterra, Estados Unidos e Alemanha). Então, por isto tudo, sou, realmente, feliz e agradecida.

"Tenho ficado sem palavras com a recepção que o meu disco tem tido fora de portas"

Que músicos é que te têm deixado de queixo caído, nos últimos tempos?

Ai, há tantos artistas que me maravilham, hoje em dia. Alguns músicos suecos são, incrivelmente, bons. Primeiro, os Wildbirds & Peacedrums, que me arrebatarem logo na primeira vez que os ouvi. Depois, Dungen, Jenny Wilson, Lykke Li e Josef & Erika são também favoritos. Os meus companheiros de editora Jenny Hval e Susanna & the Magical Orchestra são notáveis. A música que, realmente, fez diferença em mim nos últimos anos - quer nova, quer mais antiga - também seria a de Yeasayer, Arthur Russell, Fleet Foxes, Joanna Newsom, Dr. John, Moondog, Low, e, claro - e sempre -, Kate Bush.

Por fim, as duas perguntas clichés: o que é que podemos esperar de ti num futuro próximo? E, claro, quais são as tuas expectativas para o concerto em Portugal?

Mais música! Estou, actualmente, a trabalhar no próximo disco de Phaedra, que chamar-se-á The Night e que será, igualmente, lançado via Rune Grammofon, na primavera de 2013. Nos entretantos, estarei a trabalhar em novos temas para uma peça de dança contemporânea, que será algo completamente único: Night Tripper (já sei, já sei, mais "noite", novamente [risos]). Esta peça integrará um festival internacional chamado  Up To Nature, onde todas as performances de a música e de todos os demais projectos serão projectados ao ar livre, na floresta, sem qualquer electricidade. Estamos a trabalhar em temáticas de trance, xamanismo, música soul e folk do antigamente... Vai ser divertido integrar este projecto!

Quanto à digressão em Espanha e em Portugal, estou tãaao ansiosa. É a primeira vez que actuo aí, por isso levarei temas do The Sea e, até mesmo, material novo!