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Opinião

O melhor de 2010 para a Experimentáculo

Pedro Soares, da Experimentáculo, partilhou connosco os seus concertos, discos e vídeos preferidos de 2010.

Por Lais Pereira 31 de Dezembro, 2010

Enviámos um e-mail à Experimentáculo, associação cultural que dá vida músical (e não só) à cidade de Setúbal, para entrar na brincadeira dos topes de 2010. Em troca, recebemos mais que isso: uma lista com “O melhor de 2010″, explicada com muito amor e carinho. É que Pedro Soares, homem que dá a cara pelo projecto, é “um tipo de gosta de listas”. E aqui partilhamos, com o mesmo gosto,  as dele convosco:

“O melhor de 2010

Sou um tipo que gosta de listas. Agora já não tanto, mas dantes fazia listas por tudo e mais alguma coisa. Não era tão obcecado como o tipo do “Alta fidelidade”, mas fazia muitas. Agora limito-me quase a fazer as listas dos melhores (e dos piores) discos e filmes do ano. Faço-o todos os anos e raramente alguém me presta atenção. Mas este ano, em que quase não ouvi música nova e me fui desactualizando aos poucos do que se passa no sempre efervescente indústria musical (apenas por motivos profissionais, algo que penso estar já devidamente ultrapassado), não é que recebo dois convites públicos para revelar os meus preferidos de 2010? O primeiro não é uma novidade, foi do Mescla Sonora, onde colaboro regularmente; e o outro foi do (cada vez mais) pró-activo Ponto Alternativo. Claro que não disse que não e aceitei o desafio. Mas perdoem-me ambos, porque vou apresentar a mesma lista nos dois. Mas vocês, atentos leitores, continuem a visitar o Mescla Sonora e o Ponto Alternativo, ok?

Concertos
1. King Khan & The Shrines (Novembro, Barreiro Rocks, Barreiro)
2. Adam Green (Março, Santiago Alquimista, Lisboa
3. The Sonics (Abril, Casa da Música, Porto)
4. Vinicio Capossela (Março, Culturgest, Lisboa)
5. Seu Jorge & Almaz (Outubro, Coliseu dos Recreios, Lisboa)
8. Mazgani (Junho, Claustros do Convento de Jesus, Setúbal)
7. Staff Benda Bilili (Julho, Festival Músicas do Mundo, Sines)

Discos
1. Black Keys – Brothers (Nonesuch)
Depois de trabalharem com Danger Mouse e do projecto rap-rock, Blacrock, o duo Black Keys volta às origens, o que é o mesmo que dizer que regressam aquilo que fez de Rubber Factory um disco do cacete: blues sombrios, garage-rock a dois, riffs de guitarra maiores que a vida… O disco tem temas a mais, é verdade, mas mais vale a mais do que a menos, não é?

2. Harlem – Hippies (Matador)
Quando os Strokes puseram novamente o rock’n’roll na berra, tudo o que era banda de guitarras passou a ter direito a 15 minutos de fama. Até que surgiram os Black Keys, que com a sua atitude de “estou-me a cagar para o que tenho de vestir, vou só tocar e curtir, olhem para mim”, dinamitaram por completo o protocolo da indústria musical. O rock voltou a ser perigoso e a dar ênfase à primeira e segunda parte da santificada trindade do sexo, drogas e rock’n’roll. Por isso, começou-se à procura da próxima galinha dos ovos de ouro e o garage-rock lo-fi tornou-se na nova tendência. Os Harlem inserem-se nessa descrição, mas o tempo estará aqui a provar que não serão apenas mais uns na lista. Hippies é rock’n’roll juvenil, dos Sun Studios à Stax, com a mesma atitude com que os jovens americanos se enfiaram nas garagens para responderem à british invasion dos anos 60 (e cujo legado está perpetuado na série “Nuggets”).

3. Nicotine’s Orchestra – Ghosts And Spirits (edição de autor)
2010 consolidou definitivamente – e, diga-se, justamente – o estatuto do Barreiro como capital nacional do rock’n’roll (e não só). A editora Hey Pachuco celebrou dez anos com o lançamento de uma compilação de originais, o festival Barreiro Rocks celebrou a data redonda com o melhor cartaz de sempre, a Optimus Discos fez um dos seus álbuns dedicados ao Barreiro e várias bandas barreirenses lançaram novos trabalhos. E desses, a cereja no topo do bolo, foi Ghosts And Spirits, da Nicotine’s Orchestra. Esta era o projecto one-man band de Nick Nicotine, o líder dos Act-Ups. Digo era, porque agora essa orquestra foi alargada a personagens de carne e osso, dando forma aos fantasmas que foram atormentando (no bom sentido) a criatividade de NicotineNick Nicotine tornou-se no Brian Wilson do Lavradio, fazendo deGhosts & Spirits uma jukebox de rock’n’roll de harmonias solares, coros e palminhas, neo-country e gospel arranhado.
Mesmo assim, temos saudades da “visceridade” do formato one-man band…

4. Seu Jorge & Almaz – s/t (Now Again)
Seu Jorge é um tipo cheio de talento. E bastante versátil. E nem me estou a lembrar da sua faceta de actor, estou antes a falar da forma como foi capaz de gravar um disco de versões minimalistas e em português de temas do David Bowie com a mesma destreza com que lançou dois dos melhores discos de MPB dos últimos tempos. Agora, juntou-se aos ex-Nação Zumbi, para um projecto onde reinterpretam clássicos da música brasileira, de Jorge Ben a Martinho da Vila ou Nelson Cavaquinho, mas não só (Kraftwerk, Roy Ayers e Michael Jackson, cuja versão minimal de Rock With You, despida até ao seu esqueleto groove, é um dos temas do ano). Seu Jorge & Almaznão é só Seu Jorge em versão banda, é antes Seu Jorge a fazer de pára-raios e a absorver para a música brasileira uma energia, uma frescura e uma originalidade que não se via desde o tropicalismo.

5. Gil Scott-Heron – I’m New Here (XL)
Gil Scott-Heron está de volta, 16 anos depois, com um álbum de spoken-word que é mais do que isso. É o passo em frente daquele flagelo dos anos 90 que foi o trip-hop, é um retrato de cultura urbana com neons a piscar e sirenes ao fundo e é hip-hop sem beats, descarnado à rima. I’m New Here não tem a riqueza musical de um Saul Williams, mas comprova a máxima “less is more”.

6. Grinderman – Grinderman 2 (Mute / Anti-)
Grindermand tinha dois temaralhões, mas depois parecia mais uma anedota de homens de meia-idade de bigode. Agora, em Grinderman 2Nick Cave e Warren Ellis já levam a coisa mais a sério – mesmo com telediscos cósmicos, que misturam lobos e cavaleiros medievais(!).

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No entanto, o mergulho pela Americana em versão doentia e insana não chega ainda aos calcanhares de quando Nick Cave o fazia com os Bad Seeds, se bem que aprimorou aqui a sua faceta de pregador maléfico. Ainda por cima, em 2010 houve a reedição do genial Tender Pray, que torna impossível fugir às comparações.

7. Joanna Newson – Have One On Me (Drag City)
Não gosto de ser daqueles tipos que dizem que o primeiro álbum é que é, mas no caso da Joanna Newsom isso continua a ser verdade. Have One On Menão é melhor queThe Milk-Eyed Mender, mas é um álbum mais adulto, mais maduro e com melhores composições e produção. No entanto, perde-se na megalomania conceptual de ser um extenso álbum triplo e canções esticadas até ao limite.

8. Fast Eddie & The Riverside Monkeys – Bovine Intervention (Hey Pachuco Recs)
Foi mais um capítulo na legitimação do Barreiro enquanto capital nacional do rock’n’roll em 2010. Fast Eddie Nelson, bluesman com voz de crooner do Barreiro, é o hardest-working man do show-business da Margem Sul e quem o costuma acompanhar sabe que se desdobra por múltiplos projectos com igual sinceridade, empenho e profissionalismo. No entanto, os seus Riverside Monkeys é o seu projecto (reparem no itálico do artigo definido): blues-rock sulista em formato power-trio (se bem que agora também há um hammond na equação), aproximando-se cada vez mais rápido do hard-rock.

9. LUME – Lisbon Underground Music Ensemble (JACC records)
Foi a minha descoberta de Dezembro deste ano. LUME são as iniciais para Lisbon Underground Music Ensemble, uma big band de doze elementos liderada por Marco Barroso, e o álbum de estreia acaba de sair, quentinho, sob o selo da JACC Records, a nossa editora nacional de jazz favorita. No entanto, os LUME são uma big band não muito convencional, que parte amiúde pelos territórios exploratórios da fusão até ao noise, aproximando-se, nos momentos mais inspirados, dos sempre muito inspiradosNaked City, de John Zorn. Um bocadinho mais de improviso e imediatismo e podia ser um disco ainda maior.

10. Afrocubism – s/t (Nonesuch)
Em 1996, o produtor Nick Gold magicou um álbum que cruzasse os melhores músicos cubanos e malianos. Marcou um estúdio em Havana, pagou as viagens aquela gente e convidou Ry Cooder para o ajudar, mas os africanos nunca chegaram a aparecer, retidos no Mali devido a burocracias com os vistos. Como já tinha o dinheiro empatado, Nick Gold avançou com o que tinha e nasceu o álbum (e o filme) “Buena Vista Social Club”, que actualizava o reportório cubano-latino e que se tornaria no álbum de world music com mais sucesso de sempre. Mas Nick Gold nunca desistiu da sua ideia inicial e, 15 anos depois, regressou ao plano original: reuniu os melhores músicos cubanos e malianos (desta vez sem Cooder) para um supergrupo (e um superdisco) de koras, n’gonis e cha-cha-chas, que assinala o casamento entre os ritmos quentes das rumbas cubanas com o blues circular do Mali e o groove africano.

Melhor descoberta tardia
- os Twilight Singers em “Purplish Rain”
Cheguei com um ano de atraso ao disco de tributo que a revista Spin preparou aPrincePruplish Rain, por alturas dos 25 anos daquele monumento dos anos 80 que éPurple Rain. Mas já diz o adágio que mais vale tarde que nunca e quem sou eu para pôr em causa a sabedoria popular. Não sou propriamente fã da banda de Greg Dulli, mas a versão que eles fazem de When Doves Cries, o clássico que toda a gente conhece nem que seja das mil e uma maratonas do Vh1 sobre a década de 80, é a todos os níveis superior. Começa com um piano e a voz grave de Dulli e cavalga em crescendo, com a sobreposições de várias camadas de drones, segundas vozes e baterias, até rebentar num clímax arrepiante.

Melhor reedição
Arthur Brown – The Crazy World of
2010 foi um ano fértil em reedições. Tivemos uma edição remasterizada e com temas novos das sessões de gravação daquele altar do rock que é Exile on MainStreet, dosRolling Stones, tivemos a super-caixa dos quarenta anos de Bitches Brew, a revolução jazz de Miles Davis ou a versão especial de The Darkness on the Edge of Town, que transformou Bruce Sprignsteen em voz da consciência social norte-americana. Mas o destaque vai inteirinho para The Crazy World of Arthur Brown, o álbum conceptual de horror-rock de 1968(!). É apenas um disco simpático, mais curioso do que interessante, mas merece este destaque apenas para poder mencionar este vídeo:

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Melhores vídeos

1. Janelle Monáe no Letterman

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Não ficava não entusiasmado com um vídeo desde que Jon Spencer andou a destruir um estúdio televisivo francês em directo (e a bater palminhas com o Jackie Chan). A estreia televisiva de Janelle Monáe, no talkshow do David Letterman, é um uau, com uma completa desconhecida a armar-se à grande em James Brown, com uma funkalhada à Outkast. E, mesmo sem ouvir o seu álbum de estreia, The ArchAndroid, Janlle Monáe já é a minha nova artista de 2010 favorita (se bem que tenho um pressentimento de que vou achar que o epíteto de “futuro da soul” vai ser só chachada).

2. Nicotine’s Orchestra – Love Sweet Divine

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Não só Ghosts And Spirits é um dos melhores discos de 2010, como vídeo para o singleLove Sweet Divine é um dos vídeos do ano. Nick Nicotine mistura misticismo, pandeiretas, rock’n’roll e pêlos no peito num vídeo que, como alguém comentou, faz inveja a Jodorowsky e a Kenneth Anger.

3. Ok GO – White Knuckes

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Here It Goes Again foi um dos fenómenos recentes do youtube e agora, com White Knuckles, os Ok Go volam a repetir a dose. E a música até é simpática, o que é sempre bom para ilustrar vídeos que estamos a gostar de ver…

4. Scott Pilgrim Contra O Mundo

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“Scott Pilgrim Contra O Mundo” foi o melhor filme de 2010, um regalo à vista, mas também aos ouvidos. A banda-sonora é excelente (Black Lips, Rolling Stones, Broken Social Scene…), mas o melhor é mesmo Beck, que se armou em garageiro à la Blues Explosion e compôs as músicas que os Sex Bob Omb, a banda do protagonista Michael Cera, tocam durante o filme. E o tratamento gráfico do filme, reminiscente de Norman McLaren, ajuda à festa.

5. Jack White no Conan

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A polémica que envolveu Conan O’Brien e a NBC foi um dos acontecimentos de 2010. A disputa acabou com a saída do apresentador e humorista da NBC, compensado com uma indemnização milionária. Depois, enquanto não pôde voltar à televisão, Conan O’Brien andou em digressão pelos Estados Unidos com um espectáculo de stand-up comedy e gravou um disco com o seu amigo, Jack White. Por isso, não foi de estranhar que, na sua estreia na TBS (se bem que “Conan” é, até agora, um programa fraquito, ou melhor, apenas mais do mesmo mas com convidados piores), o líder dos White Stripes tenha sido o seu primeiro convidado musical. Conan acompanhou-o em palco, na guitarra ritmo e nos backing vocals, para um versão de “20th Flight Rock”, de Eddie Cochran.”