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Reportagem

Fucked Up + Mr. Miyagi @ Galeria Zé dos Bois, Lisboa

Os momentos ocorridos na Galeria Zé dos Bois dificultam a tarefa de um simples cronista como eu. Há concertos assim, difíceis de descrever, difíceis de classificar, e, principalmente, difíceis de contar a quem lá não esteve.

Por Emanuel Pereira 19 de Novembro, 2010

18 de Novembro – Galeria Zé dos Bois, Lisboa

Os momentos ocorridos na Galeria Zé dos Bois dificultam a tarefa de um simples cronista como eu. Há concertos assim, difíceis de descrever, difíceis de classificar, e, principalmente, difíceis de contar a quem lá não esteve. Dá quase vontade, perdoem a sinceridade, de dizer “tivessem ido”. Mas, neste caso, estaria a ser um mau “profissional” e um grande “mete nojo”, pois a ZDB não chegaria, nem de perto nem de longe, para todos aqueles que queriam ver Fucked Up e, por um motivo ou por outro, não puderam. Entretanto, este prelúdio já se está a estender demasiado… Vamos à narrativa.

Os vianenses Mr. Miyagi receberam a tarefa de abrir para os canadianos de braços abertos. E quem também não se importou foi o público, que logo se dedicou a criar o ambiente necessário para que a festa se proporcionasse. Empurrões, os primeiros stage dives, o vocalista Ciso a gritar contra as vidraças da ZDB para aqueles que “viam” o concerto da rua… Tudo isto enquanto a descarga punk hardcore era fornecida a um ritmo quase non-stop. Depressa as mesmas vidraças ficaram embaciadas, tal era o calor que já se sentia dentro da sala. As pequenas pausas apenas serviam para que a malta pedisse a sua faixa favorita (quase sempre I’m Cool Motherfucker) e para que Ciso avisasse os stage divers para terem cuidado com os holofotes frágeis presos ao tecto da ZDB. Entre malhas do novo álbum To the Bone(2010), foram despejadas faixas como Skate ou Morte (do split com os britânicos Cold Ones, banda cujas t-shirts foram envergadas pelos portugueses), PKL ou Get This Right. A violência foi garantida por uma banda que admite estar sempre enraivecida, num concerto que terminou com uma invasão de palco por parte de vários dos presentes.
O suor já escorria da cara de muitos e ainda nem tinha chegado o prato principal. AMr. Miyagi se deve o súbito aumento da temperatura, naquele que foi um arranque bruto e lancinante.

Chegava a hora dos Fucked Up. E como tudo seria diferente se não houvesse a já famigerada Cimeira da NATO. Por esta altura, eu não estava aqui a escrever esta review e os Fucked Up não tinham ido até ao Bairro Alto. Ter-se-iam ficado pelo Parque das Nações, num Pavilhão Atlântico que decerto não proporcionaria um décimo do que se viveu na Galeria Zé dos Bois. Perdoem-me os fãs de Arcade Fire, mas há males que vêm por bem.

O sexteto canadiano entrou em palco e Damian Abraham, o singular vocalista da banda, decidiu de imediato romper plateia adentro e pegar num espectador às costas. Pronto… Escusado será dizer que a tenda ficou logo armada, enquanto a faixaSon the Father era arremessada através das colunas da sala. Não tardou muito até que Abraham conseguisse colocar o público numa união quase umbilical com a banda…  Já sem camisola, o vocalista, do alto dos seus mais de cem quilos, viajou por todo o pequeno espaço da ZDB, de uma ponta a outra, abraçando quem queria e não queria ser tocado por ele e distribuindo o microfone a quem pretendia balbuciar umas sílabas. Por entre faixas como Black Albino BonesTwice Born ou Crusades (que teve direito a mais uma invasão do vocalista), Abraham contou ainda que a banda esteve retida no aeroporto, pois as forças policiais julgavam ser um grupo de manifestantes contra a cimeira atlântica. Depois de terem confirmado que, afinal, os Fucked Uperam mesmo um grupo musical, um polícia ainda se dirigiu a Damian tratando-o por “Mr. Miyagi”.

O festanço continuou, perpetrado por músicas como Two Snakes ou Baiting the Public, com Abraham, desta vez, a rastejar pelo chão da plateia, garantindo, pouco depois, que o seu microfone não mais funcionaria. O vocalista dos Fucked Upconfessou também que irá ter um programa televisivo no Canadá, onde poderá colocar no ar o que quiser. E, aproveitando a passagem por Lisboa (a mais bela cidade onde esteve, segundo ele), quis gravar a introdução para o primeiro episódio com a plateia da capital, que prontamente gritou um sonoro “fuck you” em direcção ao telemóvel de Abraham. Houve também tempo para revelar que a baixista Sandy Miranda falava português (ela que é filha de pais emigrados em terras canadianas), tendo  a mesma dito algumas palavrinhas tímidas.
Para terminar o set “oficial” a banda escolheu Police, tema dedicado a todos os que alguma vez tiveram problemas com a polícia e também àqueles que irão participar nas manifestações dos próximos dias.

A parte final, já extra setlist, foi dedicada a três covers que colocaram a plateia num ponto ainda mais fervilhante. No passado 31 de Outubro, noite de Halloween, osFucked Up vestiram-se de banda grunge e tocaram, em Toronto, alguns hits da onda de Seattle de início dos anos 90. E foi com um desses hits que abriram o set “não oficial”: Breed dos Nirvana, foi a escolhida, logo seguida de Blitzkrieg Bop dosRamones. O público queria ainda mais e, para derradeiro término, tocou-se Nervous Breakdown dos Black Flag, que provocou um enorme tumulto final, com corpos a voarem provenientes de todas as direcções, alegrando especialmente aqueles que envergavam as t-shirts da banda americana.

Despedidas feitas e enxugado o suor, a sala começou a escoar. Para trás, fica um concerto memorável, épico e merecedor de todo o tipo de adjectivos semelhantes. Há noites assim, em que é quase impossível resistir ao convidativo mosh e a toda a descompressão saudável adjacente. A loucura tem continuação hoje, no Porto, no Festival Náice.