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Reportagem

The Antlers @ Lux, Lisboa

Na sua estreia por Portugal, os The Antlers foram bem-recebidos por um público conhecedor.

Por Gonçalo Trindade 7 de Novembro, 2011

Noite de chuva, Lux não esgotado, mas não muito longe, e em palco uma daquelas bandas que transpiram culto por todos os poros. Os Antlers editaram em 2009 o excelente Hospice, um dos melhores discos daquele ano, e a banda de Peter Silberman repetiu este ano a proeza com Burst Apart, que abandona a melancolia e o espírito conceptual do primeiro para se dedicar a melodias mais alegres, mas sempre com a densidade e a honestidade do costume (aquelas letras não enganam, e é impossível esquecer aqueles dois primeiros feitos por Silberman a solo: Uprooted e In the Attic of the Universe), e aquela estrutura com que eles trabalham tão bem: um ritmo calmo que vai explodindo aos poucos, com a música a terminar sempre num clímax impressionante.

Ao vivo, confirma-se: resultam tão bem quanto em disco, graças a essa mesma estrutura que lhes torna possível entregar autênticas explosões de som. Num alinhamento que passou tanto por Hospice como por Burst Apart (com este último a ter destaque, claro), deu perfeitamente não só para notar a diferença de tom entre um disco e outro, mas também para ver o quão bem isso resulta, com cada música a encaixar muito bem na anterior. O início, com Parentheses, de Burst Apart, e logo de seguida Kettering, de Hospice, mostrou logo bem esse encaixe: de uma explosão de som em crescente passámos logo para outra, com a voz e guitarra de Silberman (muitas vezes em falsete) e o trabalho do teclista a serem os elementos essenciais de um som que tanto envolve quanto impressiona.

Kettering é, aliás, de longe uma das suas melhores canções, e foi ao vivo, tal como se esperava, um dos melhores momentos da noite. Consistência foi, portanto, a palavra chave. Canções mais alegres como Every Night My Teeth Are Falling Out resultam muito bem ao vivo, e acabam por encaixar muito bem com momentos mais melancólicos como, por exemplo, a espectacular Atrophy (apoteótica). Foi um jogo constante entre os dois discos (enfim, ficou a faltar a excelente Two, que até foi single…), com cada canção a ser tocada na perfeição por uma banda que provavelmente estará numa sala muito maior da próxima vez que passarem por cá; veja-se, por exemplo, a forma como Bear encaixou tão bem em Hounds.

Foi curioso ver muitos dos presentes a cantar em voz alta as canções do início ao fim, e aquele momento em que Silberman se emocionou enquanto cantava Corsicana não engana (nem deixa indiferente) ninguém: esta é, de facto, uma relação de amor. E com concertos assim, os Antlers bem a merecem.

Silberman não fala muito, nem tem que o fazer: qual era o objectivo, quando já diz tanto, e sempre de forma tão pessoal, cada vez que canta? Inclina-se para a frente e balança em si mesmo quando manda aquele riff devastador em Sylvia, canta de olhos fechados sempre que se aproxima do microfone, e transpira empenho e alma em cada pequeno gesto. O melhor músico em palco, no entanto, é Darby Cicci, o teclista que também fazia backing vocals, que com apenas algumas teclas conseguia encher por completo cada música.

Verdade que o quarteto estava todo ele em perfeita coordenação, numa sintonia que foi bonita de ver (apesar de o baterista nem estar ali a fazer grande coisa), mas foram realmente estes dois os que criaram o verdadeiro espectáculo sonoro que saía do palco. O som estava óptimo, e tiveram sorte em recuperar poucos minutos antes do concerto os instrumentos que a British Airways tinha perdido durante o voo (mas perderam a roupa, ao que parece). No geral, o concerto pautou-se por momentos quase apoteóticos, autênticas explosões em que quase parece que em vez de quatro músicos em palco estamos a ver dez, mas tudo soou sempre a puro intimismo.

A excelente Corsicana, já aqui citada e que teve a honra de abrir o encore de duas músicas (tarefa difícil, já que a transcendente Putting the Dog to Sleep já tinha terminado tão bem o set principal), foi talvez o momento mais simples e mais belo, em que realmente se vê a óptima voz que Silberman tem, e o quanto deposita emocionalmente em cada palavra que escreve e canta. O fim chegou com a inevitável Sylvia, de Hospice, que já tinha sido pedida insistentemente por um membro do público ao longo do concerto, e que voltou a mostrar aquilo que já se sabia: os dois discos, ainda que diferentes, ao vivo têm uma relação quase simbiótica. Foi do primeiro disco que vieram os dois melhores momentos da noite (Kettering e Sylvia, esta a mais bem-recebida da noite), mas com tantos excelentes momentos ao longo de hora e meia, sai-se com a ideia de que a consistência entre os dois discos é verdadeiramente notável.

Os The Antlers criaram já um universo próprio, que tanto parece soar a pop como a post-rock, e ao vivo debitam em palco tanto palavras que saem directamente da alma como distribuem riffs francamente imponentes. Uma excelente estreia em palcos portugueses, num concerto magnífico que para muitos será, tal como ouvi muito boa gente a dizer no final, um dos melhores do ano. Se em disco impressionam, ao vivo quase arrebatam. Que regressem rapidamente.