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Reportagem

Festival NetaudioLx

Três dias de partilha livre no Cinema São Jorge, na primeira edição do certame dedicado ao universo da netlabel.

Por António M. Silva 8 de Janeiro, 2012

Talvez por o netaudio ser uma premissa ainda pouco explorada e conhecida por grande parte do público português, a primeira edição do Netaudio LX tenha ficado um pouco despida de audiência. Nada que afectasse o decorrer do certame, que, ao longo de três dias, ofereceu actuações dos mais diversos parâmetros musicais e que oscilaram – sejamos honestos – entre o morno e o surpreendente.

Dia 1 - Quinta-feira, 5 de Janeiro

Coube a M-Pex – o pseudónimo de Marco Miranda – abrir as hostes do primeiro dia e do festival. Com uma guitarra portuguesa em punho, nas mentes do público presente adivinhava-se a velha máxima “silêncio que se vai cantar o fado”. Bom, quase. Ladeado por um contrabaixista e um programador, M-Pex pega realmente no fado, mas apenas como um ponto de partida para a exploração sonora. Desde um concerto relâmpago que se viu de M-Pex no bar o Século, há coisa de quatro anos, a fórmula foi felizmente bem aprimorada.

A guitarra continua a ser afagada como Carlos Paredes mostrou que podia ser tocada: sem a regimentação do agora Património da Humanidade, mas juntam-se-lhe texturas electrónicas fluídas, leves e coloridas – quase orgânicas até. O pêndulo palpitante marcado pelo contrabaixo servia de contraponto à melancolia inerente à nossa guitarra, transformando a Sala 2 do São Jorge num espaço dedicado ao onirismo deambulante e evocativo. Foi bonito.

Quem chegou para a espécie de fado e por ali se quedou, acabou certamente em choque com o que veio a seguir. É que os dUAS sEMI cOLCHEIAS iNVERTIDAS (dsci) não foram de modinhas nem paninhos quentes e tomaram literalmente de assalto o palco. Com uma estrutura semelhante a um caos controlado – lembram-se dos Estradasphere? –, em que as transições de crust-punk para lounge rock ocorrem quando menos se esperam e os devaneios se esticam para lá do óbvio, o som dos dsci assemelha-se a um choque frontal entre dois pesados. Que é como quem diz absolutamente espectacular de ver e ouvir.

Sente-se a vertigem, assume-se um risco dissonante que faz lembrar os Sonic Youth de Sex is Good/Kill Yr Idols e, sempre que se pode, cria-se ruído visceral. Tudo isto, com a atitude desarmante da banda – sempre muito aplicada –, a incorrecção estilística e a implosão de fronteiras e limites nunca soou melhor. Convenções? Não obrigado.

Infelizmente, Lisboa haveria de faltar à chamada de Metastaz para criar uma pista de dança na Sala 2. O produtor francês fez-se acompanhar de Pierre, o mestre de cerimónias responsável por metralhar palavras de ordem sob o dubstep grave e penganhento que saía do laptop de Metastaz.

Que nem um cancro, também a música o francês ia-se espalhando pela sala, ao ponto de ser praticamente impossível livrarmo-nos dela, ainda mais se tivermos em conta que Metastaz era, muitas vezes, deixado sozinho em palco. Aí, sem a languidez de James Blake, mas com a intensidade e a densidade de Burial, enchia a Sala 2 de som subsónico e agradavelmente grave. O embalo perfeito para a noite que fria que estava lá fora.

Dia 2 - Sexta-feira, 6 de Janeiro

Ainda com os ritmos quentes que nos tinham abraçado a ecoar na mente, chegámos à porta da Sala 2 para sermos presenteados com uma venda. Afinal, a actuação de Luís Antero – patrão da Greenfield Recordings, excelsa base de gravações de campo português – chamava-se "Concerto para Olhos Vendados".

Os quarenta e cinco minutos que se seguiram foram uma verdadeira experiência sensorial. Sabe-se, desde tempos imemoriais, que o ser humano, privado de um sentido primordial, acaba por apurar todos os outros e foi precisamente graças a esta ideia que o concerto de Antero ganhou contornos de surrealidade. Primeiro, porque as gravações de campo montadas numa peça única ouviam-se de forma soberba. E segundo porque, consequentemente, acabámos por afinar o cérebro para um estado de evocação, provocado e amplificado pela venda nos olhos.

Qual evocação a partir do som, sentiam-se as imagens a formar na nossa mente, numa espécie de teste a nós mesmos. “Que som é este?”, perguntamos a nós mesmos. A água, a ceifeira, a chuva, a porta, o tractor, a voz, o carro… Tudo orgânico, tudo natural, tudo evocado e em reprodução na nossa mente. E, quando acaba e tiramos a venda, sentimo-nos como se tivéssemos viajado para outro lugar, mas sem nunca termos saído dali.

De Antero viajámos para OCP, uma transição tão agradável quanto surpreendente. Embora as composições deste último pouco tenham de orgânico – o Mac era a sua arma de eleição –, é difícil ficarmos indiferentes à sensação de chill out, de acalmia até, transmitida pela experimentação de OCP.

Nos terrenos manipulados do glitch, ouvimos tempos em contratempo, vemos uma imagem urbana em decadência e sentimos a melancolia em doses perfeitas. O conforto não nos faz dormir e o desconforto não nos faz querer fugir. A rede sonora de OCP é, na verdade, perfeita para o quase final de noite.

Infelizmente, de Pedro Sousa e D’Incise não vai rezar a história. Não pela fraca qualidade da actuação, mas antes pela sua curta duração. Ainda assim, nos cerca de trinta minutos em que a dupla esteve em palco, o desafio foi constante. De um lado, o saxofonista português desdobrava-se em ritmos soprados, primeiro de mansinho, e depois de abrasão. Do outro lado, o suíço D’Incise tecia pequenos pedaços de ruído – quase sempre com a ajuda de um arco de um violino e aquilo que pareciam pequenos transístores –, que serviam de base e complemento para o saxofone de Sousa.

Uma exploração que era obrigatória neste festival, mas que pecou por breve e até por alguma falta de risco.

Totalmente diferente haveria de ser o showcase da Headstart Records. A netlabel que não sabia que era uma netlabel tem como temática o hip-hop e trouxe para palco o seu catálogo “in the flesh”. Souberam dar os tons certos a uma noite que precisava do que eles fizeram: festa.

Dia 3 - Sábado, 7 de Janeiro

Na terceira e última noite do Festival NetaudioLx, a electrónica era palavra de ordem e os seus representantes eram de peso. Marco Donnaruma (uma actuação que o repórter do PA’ não chegou a tempo de acompanhar, mas que as boas pessoas do certame fizeram questão de apelidar como sendo surreal), DJ Ride (o português Campeão Mundial de Scratch) e Pitbull, the Sexydog (um simpático francês que arrebatou a noite. Mas já lá vamos).

Por estas alturas, DJ Ride é um nome que dispensa – ou devia dispensar – apresentações. Com mãos tão rápidas como as de Lucky Luke, o caldense começou por mostrar a Lisboa do que é feito.

Dubstep, muita electro e um sentido de ritmo invejável. Tal e qual como se ouve no EP Beat Journey. A batida, para Ride, é poder, tanto ou mais como a velocidade a que os breaks cirúrgicos acompanham o scratch. Com meia sala boquiaberta e outra meia sala a dar que fazer às pernas, Ride anuncia que vai levantar o véu ao seu novo projecto intitulado Pixel Trasher - que é, nas palavras do próprio, uma espécie de scratch VJ, em que Ride corta, cola, mistura, acelera e desacelera imagem e música.

Talvez por ser recente, eventualmente por ainda não estar tão à vontade com este novo formato, Ride acabaria por deixar o entusiasmo inicial esmorecer. Na primeira tranche, o DJ optou por mostrar uma pequena homenagem a produtores como Flying Lotus, mas talvez por a fórmula ser ainda demasiado fresca, muitos dos clips acabaram por sofrer de desaproveitamento. “O plug-in é novo e ainda me estou a habituar, mas acho que não correu mal. Ainda assim, aqui fica uma amostra daquilo que aí vem em Pixel Trasher. Obrigado”.

Bendita a hora em que Ride disse estas palavras e deitou mãos a algo que estará, sem dúvida, mais bem ensaiado. Tendo por base imagens de Jungle Fever, Ride foi implacável para com o público e acabou por servir uma dose inflamada de scratch, bom sentido rítmico e sons do novo milénio (aka dubstep), que voltaram a levar o público aos píncaros.

Noite salva apesar da mácula e com um aviso: que se cuidem as pistas de dança. De França, veio a maior surpresa e o nome mais cómico de todo o festival, Pitbull the Sexydog. Nada fazia prever aquilo que aí vinha – pelo menos, não o nome – e, infelizmente, a sala acabou por ficar, novamente, muito vazia.

Amante de batidas rápidas e sintetizadores bastante ácidos, o francês destilou cerca de quarenta e cinco minutos da electrónica mais contagiante que por aí se ouve. Com uma atitude de 24 Hour Party People, Pitbull foi incansável junto do seu Khaospad e saltou, sequenciou e mapeou como se o mundo fosse acabar naquela noite.

Era impossível resistir e ficar quieto às elevadas BPM que pareciam electrocutar cada centímetro do nosso corpo e que, quase involuntariamente, nos faziam mexer e dançar. Foi o grande espanto do dia, do festival e, importa ressalvar, merecia uma sala cheia para que o contágio fosse geral.

No final do evento, ficam duas ou três coisas a sublinhar. A primeira é, indubitavelmente, o louvor à iniciativa. Não são muitos os festivais que arriscam em nomes virtualmente desconhecidos e que, ainda por cima, o fazem de forma gratuita.

Depois, importa dizer que as falhas não foram visivelmente notórias, nem os atrasos. Só faltou mesmo mais público para que a livre partilha de pensamentos e conteúdos fosse celebrada de forma única e conjunta como se queria. Esperemos que este tenha sido o primeiro de muitos. O PA’ estará lá, certamente.

Vê a fotoreportagem completa do festival, com fotos por Graziela Costa e Lais Pereira, aqui