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Reportagem

Milhões de Festa 2012 - dia 1

O Milhões de Festa começa a ser um caso sério na larga praça de festivais portugueses. Se dúvidas houvesse depois da edição memorável do ano passado, acabariam por ser dissipadas com o que se passou em 2012.

Por António M. Silva e André Forte 24 de Julho, 2012

O Milhões de Festa acabou no domingo. Aliás, acabou na segunda-feira pela manhã, quando os seguranças decidiram acordar o campismo com a sua simpatia cândida. Mas ninguém se queixou; durante quatro dias, Barcelos recebeu os festivaleiros que apareceram em número record na quinta-edição do festival, o terceiro na cidade do golo, como só no Minho se faz: com tudo à grande e sorrisos rasgados. Vamos lá coroar o melhor festival de verão com a música que ele nos deu, provavelmente a melhor.

Finalmente, o Milhões dá-nos uma edição em que nada se dispensa. Se no ano passado as Vivian Girls fizeram questão de massacrar os presentes com um dos concertos mais chatos de que há memória, este ano esse papel ficou nas mãos de El Perro Del Mar, que ainda assim conseguiu ser um poço de divertimento, olhando de volta para 2011. Foi caso isolado e foi um drama facilmente controlado pela energia especial que pairava. Passou depressa e ficou resolvido com o concerto seguinte. Este foi um ano em que nada em Barcelos falhou – a organização, as condições do certame, o número de presentes, tudo correu pelo melhor, mesmo os atrasos que permitiam estadias mais longa na piscina ou na taina e refeições gigantes antes dos concertos. O Milhões de Festa acabou no domingo e levou o verão consigo. Para festejar, eis uma recordação de como foi, do ponto de vista meramente musical.

O dia zero do festival começou com concertos pela cidade toda, enquanto os campistas se preparavam no parque da cidade. Com alguns concertos mais concorridos do que outros, os únicos que tiveram oportunidade de tentar mais uma voltinha nas Milhões de actuações foram os Glockenwise, que fizeram questão de virar o palco Taina do avesso. O mesmo não se pode dizer da actuação dos Gnod, em formato djset, que arrefeceu muito os ânimos.

Contudo, a festa continuaria no dia seguinte. A piscina abriria ao final da manhã e Jibóia, pelo início da tarde, tomava conta do estrado para tocar guitarra sobre batidas com o propósito mínimo de aquecer a água gelada das instalações municipais de Barcelos. Missão cumprida: Jibóia munido dos seus ritmos tropicais, encheu a zona da piscina com as miragens mais áridas onde quer que o seu contínuo solo batesse. AF

No Milhões, a música é dual: funciona como um pano de fundo durante a tarde, onde o cenário principal é a piscina sobrelotada, e torna-se imprescindível à noite, ainda que com apostas mais seguras do que arriscadas. Veja-se o concerto dos Equations por exemplo. A banda do cartel Lovers & Lollypops está em forma, conhecem bem a matemática e as suas quebras como as palmas da mão, mas a verdade é que a confusão sonora se sobrepunha à exímia execução da secção rítmica e a fórmula acaba por se tornar aborrecida e sensaborona depois de algum tempo. Deu para perceber que Frozen Caravels já caiu no goto de muito boa gente, mas o som embrulhado (infelizmente, foi uma constante naquele palco) e a voz esganiçada deixam no ar a sensação de que os Equations são uma pantomima com muita parra, mas pouca uva.

À flor da pele, além do calor e de um ligeiro escaldão, começava a aflorar um sede extrema de rock ‘n’ roll; benesse das benesses, os ALTO! eram os senhores que se seguiam. Com Joca cada vez mais omnipresente e Ricardo incendiário atrás das teclas, os ALTO! encarrilharam no rockabilly gingão, gritaram revolução, guiaram-nos através de ruas histórias – umas mais dúbias que outras – e agitaram as hostes, como que a dar a toada ébria de despertar para o resto do dia. O novo álbum, apresentado de forma crua e contagiante, foi como um catalisador para os ânimos do público e até para o próprio palco, que tremeu, mexeu e festejou com os barcelenses. AMS

Mas nem tudo fica na piscina e no primeiro dia ainda há pernas para tudo. Houve pernas para Burning Man, neste caso. A banda de Viana do Castelo fez questão de atirar as músicas do primeiro EP Ronin, ostentando não só o seu bom gosto (contaram-se boas t-shirts de Kylesa e de Mastodon no palco) mas também a sua vontade de fazer mossa. Sludge metal na ponta da palheta e gritos guturais do vocalista serviram para armar alguma algazarra e para provocar um ligeiro mosh pit para abrir o apetite para a taina.

Seguiram-se-lhes os Savanna, nova sensação do circuito independente português. Depois de já termos tentado a sorte com os lisboetas quando abriram para Tera Melos, percebi que eventualmente teria de desistir, porque o quarteto faz algo que nos escapa mas que os coloca nos campeonatos mais sério de boa música em Portugal. Os riffs não convencem, assim como o psicadelismo parece apenas um artifício na música. Contudo, os Savanna recolheram um óptimo feedback dos presentes e tiveram uma segunda oportunidade para se redimir, a meus olhos. Já lá vamos.

As 20h horas já badalavam há algum tempo quando os La La La Ressonance subiram ao palco Milhões. Depois de umas primeiras 24 horas a passear por Barcelos e tentar perceber os esquemas todos, o Milhões de Festa começaria oficialmente e com a melhor prata da casa. Infelizmente, a vitrina não era a melhor para Faust, o novo álbum dos minhotos. Um espaço demasiado amplo, uma hora demasiado soalheira e o facto de ser um concerto para se degustar a densidade foram três factores que, juntos, foram fatais para uma das melhores bandas portuguesas do momento. Melhor, não foram fatais, mas deixaram mazelas feias no concerto. AF

É bom regressar a um recinto em que com ele regressam vultos respeitados, daqueles que causam mossa na nossa existência. Não falamos do Homem de Branco, que regressou igual a si mesmo, mas sim de Löbo na sua enésima encarnação, antecedido de um RA cada vez mais experimental e à vontade num palco que chegou a parecer pequeno para tanto ruído. Mas vamos por partes.

Qual ovni, RA assomou ao palco envolto em ruído e de certeza que houve quem se lembrasse do banho de bizarria e ruído que os Shit and Shine deram o ano passado. Mas a verdade é que o ruído é a única coisa em que RA se aproxima do colectivo. É que a frieza de Ricardo Remédio é tão tangível quanto palpável e vem com tendência para um crescendo climático – leia-se de ruído. Sem a interferência obsoleta de uma guitarra, é a maquinaria que assume uma posição estrutural e de comando, em que os sentimentos são expiados através do ruído, os demónios exorcizados no feedback e o corpo castigado no headbang.

E porque do ruído viemos, no ruído continuámos. Após a exposição gélida de Rancor, os Löbo apoderaram-se do palco e, qual cilindro sónico, devastaram tímpanos e mentes inertes. Com as influências de Neurosis e Cult of Luna cada vez mais notórias (os teclados foram uma verdadeira delícia de ouvir), assinaram um concerto manchado apenas pela luz do dia e de um PA que, obviamente, não contava com tal descarga de ferocidade – e, ao contrário de RA, com a carne no comando. Ainda assim, ficámos com a ideia de que os Löbo estão dispostos a voltar para o topo da cadeia alimentar do doom português.

Não é normal, nem tão pouco suposto encontrarmos logo no primeiro dia aquele que foi o melhor concerto do Milhões de Festa, mas aconteceu. A culpa, essa é dos Sensible Soccers. Não será exagerado dizer que aqueles sessenta minutos roçaram a perfeição e podemos apontar vários motivos: o onirismo que incutem a cada música e que ajudou a que o público começasse a viagem sentada de olhos cerrados; as texturas de filigrana coloridas com sintetizadores pintados por Gustav Klimt; o twist de Fernanda que pôs toda a gente a dançar; as coloridas guitarras pós-rock que ajudam à introspecção; uma batida cósmica que faz lembrar a Alemanha de outros tempos. Podem tentar riscar aquele que não interessa, não vão conseguir: foi simplesmente perfeito. AMS

Os Baroness viriam a confirmar aquilo que já era suspeita há muito por estes lados: Yellow & Green não é um disco com energia para competir no mundo actual da música pesada, onde a cada esquina surgem bandas melhores e mais criativas. Se aos norte-americanos não faltava energia, não se pode dizer o mesmo da sua criatividade e da força das suas composições. Os Baroness são verdeiros monstros de palco, mas não cumprem o requisito musical de um bom concerto, muito menos com Red e Blue Records afastados dos alinhamentos. AF

Mas o Milhões de Festa não é só feito de concertos e chegou a haver tempo para sérias epifanias. Reparámos que os League, por exemplo, soam a um óbvio fruto de uma geração em que as bandas parecem saídas de um gerador de bandas aleatório, em que o corta/cola é o mecanismo motriz e o privilégio do trabalho cai em detrimento de teclados berrantes e harmonias excessivamente alegres. Mas a melhor epifania chegou com a peculiar actuação do misterioso Holy Other: o futuro da música está, na electrónica. Holy Other vive na Grã Bretanha, essa ilha onde a música electrónica é epicentro desde os anos 90 e onde tudo parece ser inspiração para criar música fumarenta, noctívaga e estranhamente contagiante. Começando pelo bom dubstep (o de Burial, não o de Skrillex), passando pela acid-house e explorando os contornos distorcidos daquilo a que chamam de witch house, Holy Other desvinculou-nos de ideias pré-concebidas e expôs a céu aberto as possibilidades infinitas que temos ao conjungar um bom sample vocal com uma textura sintetizada e manipulável. Uma verdadeira refeição gourmet.

De certa forma combalidos com a entrega de Holy Other, quase que faltava entusiasmo para a festa dos Throes & The Shine. Quase, porque já é impossível ficar indiferente ao quarteto com uma das premissas mais originais de Portugal, a tão falada fusão de rock com kuduro. Vimo-los nascer no Milhões de 2011, vimo-los crescer ao longo deste ano e assistimos à maturação contagiante em apenas 12 meses. Rockuduro parece ser maior do que a própria banda alguma vez esperou, mas não arqueou perante o peso. Com um percussionista/guitarrista extra, houve pujança para dar e vender e, pese embora a batida repetitiva, a verdade é que estes rapazes dão festas como ninguém sabe dar. Envoltos em confettis, miúdas e com o kuianço no máximo, dançou-se bué no Milhões de Festa. AMS

Os Youthless continuaram a farra dos Throes + the Shine no palco secundário, mas de forma mais bacoca. Numa altura em que a música se começa a renovar, a dupla esquizofrénica, sempre a saltar entre o português e o inglês, ainda tocou algo semelhante ao clash de música de dança com rock 4:4. Se a boa disposição da banda nem sempre faz boas canções, o mesmo não se pode dizer sobre dar bons concertos. Os sorrisos foram-se esboçando e, chegada o momento em que o seu amigo de infância cantou Snowblind dos Black Sabbath, ficou claro que ninguém queria saber de nada ali. Era tocar e fazer umas piadas.

Portanto, ainda que de forma possivelmente involuntária, a dupla acamou bem o terreno para que Rigo Pex, o senhor Meneo, autor de êxitos como Papi, fizesse do palco Vice um Disco Tycoon 2000 para a primeira consola nintendo. Parcamente vestido e com alguns indícios de “vamos ficar nus” aqui e ali, Meneo pegou no seu único instrumento, um GameBoy de cor berrante e cujas poucas teclas fez questão de manusear mal. Contudo, prego atrás de prego, Pex ia martelando êxitos em 8bits, fazendo a audiêcia dançar Daft Punk, cantar Stevie Wonder ou fazer um mosh pit enquanto se grita bem alto “Tiger Woods is gay!” O que aconteceu ali não ficou muito claro, no fundo; mas ninguém pode dizer que ele tocou a Papi, porque não é verdade. Achamos. AF