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Reportagem

Milhões de Festa 2012 - dia 2

As ameaças de mau tempo não passariam disso, ou não fossem os primeiros escaldões terem acontecido enquanto se aguardava pelos Bro-X. A noite, contudo, seria de Connan Mockasin e dos Gala Drop.

Por António M. Silva e André Forte 24 de Julho, 2012

Começar um dia com nevoeiro e calor é inusitado. Mas depois lembramo-nos que estamos em Barcelos, em pleno Milhões de Festa e apercebemo-nos de que tudo é possível. Bolas, se é possível haver um panado com o tamanho de um tampo de uma mesa de café, nevoeiro e calor é perfeitamente natural. E também nós, meros mortais, nos tornamos capazes de suportar a ausência de sombra na piscina para beberricar de uma sessão de noise e drone servida em bandeja ébria pelos GNOD. Longe dos instrumentos tradicionais, longe do psicadelismo que os juntou aos White Hills e que haveria de os juntar aos Black Bombaim no dia seguinte, o colectivo inglês mostrou-se seguro, mas pouco arriscado. Com uma viagem por paisagens electrónicas e etéreas, foram aquecendo, sem entusiasmo, a muita maralha humana que se movimentava por ali.

Com a carne a escaldar e a pedir mais castigo, preparava-se a chegada dos Revengeance. Aqui fala-se de violência, pancadaria e destruição e foi isso mesmo que se viu. Para lá do crowdsurfing, ouviam-se riffs assertivos, uma bateria rápida e a voz musculada e enérgica dos dois vocalistas. Se estava a faltar porrada ao festival, houve-a aos molhos no concerto do quinteto, distribuída sem olhar a como nem a quem, como só o powerviolence consegue dar. Só ficou a faltar alguém a cair à água.

Como corpo em êxtase e carregado de testosterona pede um mergulho na piscina, acabou por ser lá que ficámos para a actuação de Moulinex + Xinobi, em regime DJ-set. Com malhas escolhidas a dedo para aquele espaço, em que relaxamento é palavra de ordem e o sol veraneante se impõe no pensamento. Um bom aquecimento e uma boa injecção de boa onda para a noite que aí vinha. AMS

Com os atrasos, o sol já se ia despedindo, o calor continuava a apertar e a festa na piscina continuaria, desta feita pelas mãos da excêntrica e incansável Da Chick. Em modo live act, e com o fato de banho vestido, estava tudo pronto para suportar a subida das temperaturas, com o núcleo térmico no palco que a bela lisboeta pisava. Não foram poucos os impropérios vindos de Da Chick, que não se mostrou em nada interessada em dar menos do que uma grande concerto, cheia de groove e de energia. É nisto que o Milhões de Festa é especial: quem pisa estrados sabe que todo o palco é, realmente, um palco. Da Chick certamente que não se foi embora sem espantar bikinis e calções de banho dos corpos dançantes.

Os Bro-X subiram ao palco piscina já o dia ia longo, já eles estavam a beber há muito, e já as braçadas pesavam nos músculos. Mas isso não os impediu de, contra o relógio, pôr os pontos nos “ii”. A Karla (nome metafórico para todas as damas que já encornaram bacanos) é mesmo uma Puta, eles têm consciência de que o Xangai não é vida e, BUM! BOMBA!, gritariam “até t’apagas” ao PA, que não estava autorizado a continuar. O set cortado não impediu o colectivo da margem sul de continuar o seu bacanal-mitra-maltrapilho, que mando o dj Fudiduh embora e cantou uma versão acapella de Holanda. Infelizmente, o dj é mesmo fudiduh e ficou a fazer falta malhas tão incríveis quanto Maradona e Zé do Love. E triste foi ver que havia mesmo uma bola à espera de ser chutada para o Maradona. Sim, este Maradona chutava. AF

Foi com a subida ao palco dos Blues Pills que senti que o segundo dia ia ser o mais equilibrado e consistente em termos de música. Demorei trinta segundos a ser arrebatado pela voz carregada de Jim Beam e paixão da vocalista Elin Larsson. Demorei outros trinta segundos a perceber que estava a gostar genuinamente dos Blues Pills porque as influências do bom rock dos anos 60 estão todas lá. Ajuda que metade da banda tenha militado nos Radio Moscow, mas também ajuda que Dorrian Sorriaux e Cory Berry tenham virtuosismo, que empresta ao colectivo uma aura sessentista extremamente contagiante, ainda que pouco original. E apesar de contarem com apenas um EP, conseguiram gerar um consenso verificável pela grande fatia de público que ali se concentrava.

Mais uma ficha, mais uma viagem. As crianças não pagam, mas também não andam. Em parcas (e enigmáticas) palavras, foi assim o concerto dos Lüger. A viagem foi no tempo, as crianças foram aquelas que saíram ainda antes de nuestros hermanos se lançarem em força aos teclados alucinogénios, aos ritmos timbrados e às melodias psicadélicas. De Madrid para Barcelos, chegaram com a lição bem estudada, batalharam com o som embrulhado, mas saíram com o troféu de melhor orquestração de teclados que vimos no festival. Um saborzinho a Doors e Suicide, que culminou com a pulsante Swastika Sweetheart, uma viagem por um túnel de luz colorida com direito a fina delirante e pulsante. AMS

El Perro Del Mar iria protagonizar a falha mais consensual do festival. Sarah Assbring enveredou numa aventura sem retorno pelas terras da electrónica negra, típica das terras de sua majestade. Contudo, a nova postura da cantora sueca está ainda frágil e sem a força essencial de um baixo – ou seja, não basta fazer uma malha negra, de batidas assertivas, para se fazer electrónica decente. Foi um concerto que passou, mas que poucas marcas há-de ter deixado. AF

Com o corpo mole, com a genica de uma alforreca e com a vontade de abraçar a relva para nunca mais a deixar, batalhámos caminho para apanhar os Prinzhorn Dance School. Não sabia bem o que esperar, pois toda a gente disparava em sentidos diferentes. Ora mencionavam a DFA, ora falavam da Factory, ora os colocavam em Londres com a mesma facilidade que os colocaram em Nova Iorque. Esmola muito grande para um pobre crédulo como eu, mas que estranhamente acabou por se materializar. Isto porque o trio tem uma secção rítmica em simbiose perfeita: baixo e bateria são ao mesmo tempo ribombantes, mas secos, dando a toada necessária para fazer mexer ao pé – um pouco como as bandas da DFA. Por outro lado, ouvia-se-lhes no ruído a mesma negritude que preenche o pós-punk com as artimanhas da voz a fazerem lembrar os Liars ainda residentes em Brooklyn. Acima de tudo, louvemos-lhes a consistência e a vontade de arriscar e de se demarcarem do pós-punk sobrepopulado com uma atitude artsy sem soar fartsy.

Com a pulsação acelerada, as pupilas dilatadas e o pensamento colado ao túnel de luz que atravessámos com os Lüger, esbarrámos em Connan Mockasin no palco Milhões. Dizer que ouvir Forever Dolphin Love foi o analgésico/anti-depressivo/tranquilizante que precisávamos será mero eufemismo. Aliás, resumir o concerto dos australianos a essa malha apenas será redutor e uma enorme asneira, pois estaríamos a passar por cima de forma rude e grosseira da melhor incorporação da new-psychadelia que tem surgido com força na Austrália e Nova Zelândia. A Connan Hosford e companhia parece não lhes faltar nada. Ouvi-los é abraçar a tranquilidade etérea. Ouvi-los é reparar na voz andrógina e chamativa, qual cantar de sereia, e entregarmo-nos de braços abertos e rendidos a ela. Ouvi-los é viajar. Ouvir-los é sentir a uma guitarra a soar como um curso de água a correr. Ouvi-los é como colorir com aguarela uma noite que até aí não tinha pontos de destaque. Não, a Connan Mockasin não lhe falta nada e a nós, agora que o vimos, também não. AMS

O som é algo poderoso. Transforma espaços, muda ambientes e altera estados de espírito consoante a vontade do mais sincero executante. Enquanto alguns passam o tempo a tentar fazê-lo, os Gala Drop limitam-se mesmo a mexer onde têm de mexer. O palco Vice viu-se, assim, metamorfoseado pela fusão incandescente dos lisboetas, assumindo a breu que associamos a alguns pubs urbanos. O calor do baixo (cá está ele), provocava os corpos, que não coibiram os movimentos, nem resistiram ao encantamento tribal da percussão. Os portugueses conseguiram a difícil tarefa de se elevar aos píncaros num festival cheio de oferta. Estiveram sempre lá em cima, como só os Weather Report na fase mais latina saberiam estar.

O encerramento do palco Milhões ficou na mão de um indubitavelmente ébrio Dixie Collins e dos seus amigos charrados Weedeater. O cheiro a erva não era tão forte quanto rumores possam dizer e talvez por isso Dixie se tenha dedica a emborcar whiskey directamente do gargalo como bom javardolas que é – e a música reage ao corpo, já se sabe. O organismo do norte-americano, possuído pelo álcool e provavelmente pelo demónio, atirou com os melhores riffs de todo o festival (desculpem-me os Baroness, mas copiar Muse não chega para se qualificar, sequer, para o campeonato do riff indiano), de entre os quais destacamos a tua sulista e ao mesmo tempo Sabbathiana faixa-título do álbum Jason... the Dragon. À pala da violência contangiante da música, os norte-americanos protagonizaram a sessão de headbanging mais significativa deste Milhões de Festa, que viu nas bandas mais pesadas uma lição de como domar palco e audiência. Os Weedeater, mais do que domar, andaram ao sabor do festival todo e ficariam para arrastar mais umas guitarras se não tivessem avião para apanhar, como explicou o frontman. AF

A noite não haveria de terminar sem uma dupla desilusão. Primeiro, o avançar da hora que parecia afastar-nos mais e mais do concerto de Publicist. Depois, o concerto de Publicist. Admito que fui levado ao engano pela web, que me mostrou Sebastian Thomson em delirante e viciante frenesim atrás de um kit de bateria. Admito que esperava o mesmo e admito que não escondi a tristeza quando me deparei com um muro de linhas electrónicas que escondiam todo o balanço da bateria orgânica de Thomson, fazendo-o soar mais a DJ do que a baterista. O vocoder fica-lhe muito bem e tocar no meio do público é arrojado, mas aquela festa já não era para mim.

No final, por entre o house, o funk e o dubstep de xxxy, ficava premente na memória a actuação celestial dos Connan Mockasin e o desejo que tínhamos de ver os Gnod a arrancar definitivamente (no dia 0 ainda ameaçaram, ao lançar In The Air Tonight de Phil Collins) juntamente com os Black Bombaim. Mas para tudo isso haveria as derradeiras 24 horas do festival… AMS