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Reportagem

Optimus Alive 2012 - Dia 1

Numa abertura de festividades em que se dançou como se não houvesse amanhã ao som de Justice ou Buraka Som Sistema, os Refused atribuíram sentido à sua reunião.

Por Emanuel Pereira 14 de Julho, 2012

Ainda a pequenada se ia acomodando no palco secundário, à procura do melhor spot para assistir a LMFAO, já os The Parkinsons desferiam os primeiros acordes do seu punk directo e sem manhas.
Um contraste a abeirar a ironia, mordazmente entendido pelo bicho de palco que é Afonso Pinto, e usado a favor pela banda portuguesa, que aproveitou a oportunidade para lançar a semente de Back To Life, o seu novo álbum.

Num primeiro dia em que a maioria parecia estar claramente disposta a abanar o corpanzil ao som das batidas de Buraka ou Justice, não é admirar que Danko Jones não tenha conseguido centrar em si as atenções. Ele bem queria: não deixou que os fotógrafos se fossem logo embora, fez poses de rockstar e andou a sacar riffs de Queens of The Stone Age, Judas Priest e Black Sabbath. Também deitou a língua de fora, bem à Gene Simmons, mas não havia volta a dar. O Alive 2012 não é o Paradise Garage em 2006.

As Dum Dum Girls proporcionaram o primeiro momento do festival para lá do rock. Atrapalhadas por alguns problemas técnicos, as miúdas californianas ofereceram uma dose da sua noise pop centrada em Only in Dreams, o seu segundo álbum abençoado pela elementar Sub Pop. Já mais cheio do que em The Parkinsons, o palco secundário aplaudiu e não pareceu importado com o estaticismo das americanas – estaticismo tantas vezes (mal) confundido com “falta de interacção”.

Uma gargalhada e um useiro “mete mais tabaco nisso” seria a melhor resposta a quem há um ano atrás tivesse dito “imagina lá Refused no Alive”. Desde quando é que os suecos se iriam reunir e porque raio haveriam de tocar num festival da dimensão deste que acontece em Algés? Daí que ver Dennis Lyxzén a surgir em palco e a berrar “I got a bone to pick with capitalism and a few to break” não seja uma imagem de assimilação imediata. Ainda para mais, o som no início fez-se baixo e abafado, contribuindo para uma sensação de “isto não está bem a acontecer”. Em vez do tradicional beliscão para acordar, foi o empurrão, fruto dos múltiplos e poeirentos remoinhos de mosh, que nos pontapeou para a certeza: os Refused estavam ali.

É claro que todos aqueles que ali se aglomeraram para ver o grupo de Umeå (e não eram assim tão poucos como à partida se julgaria), preferiam ter marcado o encontro para uma pequena sala, num horário onde o sol já não espreitasse. A envolvência não era a idílica, mas o lado positivo desse busílis é que ele foi desde logo assumido à partida não só pelo público, mas pela banda. Por mais do que uma vez, Dennis frisou o quão estranho é viajarem pelo mundo a tocar para tanta gente, quando na altura do seu fim actuavam em garagens com cem pessoas, e denotou até um certo constrangimento em relação ao preço do festival, dada a situação económica portuguesa. A necessidade de quase pedir desculpa por tudo é totalmente entendível, mas ter a oportunidade de ver Summerholidays vs. Punkroutine, Refused Are Fucking Dead ou Rather Be Dead serem deslindadas com uma eficácia e uma pujança desarmantes chega para fazermos as pazes com os agora quarentões. Impagável testemunhar a satisfação de quem nunca julgaria fazer crowdsurf em New Noise e impagável também assistir a um Lyxzén de dentes cerrados, olhar ríspido e a vociferar: "Stay curious, stay wild and stay fucking hungry!"

Depois de tamanha experiência, re-sintonizar o comprimento de onda não é brincadeira. Atinar com os Snow Patrol no palco principal muito menos: a robusta simplicidade dos Refused foi substituída por uma parafernália de luzes e lasers, que, apesar do inegável belo efeito que tem, não esconde a debilidade que os escoceses demonstram ao vivo. O espaço que foram conquistando nas rádios de todo o mundo, principalmente depois de Final Straw, fez com que muitos se tenham deslocado para os ver, mas a pasmaceira de uma banda que não dá o devido “salto” ao vivo obrigou a que o palco secundário fosse o foco principal de atenção.

Os LMFAO, como o nome indica, são uma piada, mas havia tanta gente com t-shirts, glow sticks e demais acessórios, que não admira que a tenda tenha ficado a abarrotar e houvesse gente quase a dançar em cima das barracas do pão com chouriço. Histeria colectiva, principalmente nas dianteiras filas, por onde se acumulavam crianças e early teens. Pelos vistos, o sidekick de RedFoo voltou a não comparecer, mas a diferença é irrelevante.

Ah!, bendita Santi White, que lá mostrou como se faz (e se transporta para palco) electrónica da boa. É impossível resistir aos impulsos que aquela bateria oferece, bem mais dinâmica e peremptória do que as simples batidas pré-gravadas. Uma sova rítmica de Santigold, que nos voltou a oferecer um concerto festivo, pulsante e dançável. GO, a malhona que abre Master of My Make-Believe, não mais nos abandonou a cabeça durante o resto da noite; infelizmente, tivemos de ser nós a abandonar o cenário, para encontrar os The Stone Roses.

Ter os britânicos como headliners de um festival como o Optimus! Alive pareceu uma aposta arriscada desde início. Tudo bem que o evento, tal como a organização já confessou, não nega que segue as pisadas de um Reading ou de um T In The Park – e nestes, os The Stone Roses são uma espécie de lordes, onde até Ian Brown a solo consegue encher qualquer recinto a céu aberto. Acontece que em Lisboa o cenário acabaria inevitavelmente por ser diferente. O público desde cedo não pareceu convencido pelos maneirismos do vocalista e nem a entrada triunfante como uma das mais belas composições que a britpop já nos ofereceu (I Wanna Be Adored) chegou para acalentar os espíritos.

Não foi um mau concerto, no entanto. Sim, Ian Brown desafina sem dar cavaco e vai-se divertindo no seu jogging com um casaco da Etiópia vestido, enquanto o restante grupo se abraça a intermináveis e groovadas jams em temas como Fools Gold e Waterfall. Mas é irrefutável que, mesmo na sua versão 2012, os The Stone Roses trazem à baila momentos inolvidáveis para aqueles que saudosamente recordam o homónimo de 89, e isso via-se principalmente nas faces dos britânicos (lá está), que se juntaram em grande número durante a actuação da banda de Manchester.

Dando meia-volta, ninguém estranhou que a tenda secundária estivesse novamente a romper pelas costuras. A alternativa aos The Stone Roses fazia-se em português com sotaque angolano e não vale a pena estar aqui com demais rodriguinhos. Os Buraka partiram aquilo tudo, tal como a plateia pretendia. Afinal, o relógio já ia avançado e o álcool já ia provocando os inevitáveis estragos. Naquele que foi muito provavelmente o melhor concerto português do primeiro dia do festival, os Buraka Som Sistema re-comprovaram, através das inevitáveis (We Stay) Up All Night e Kalemba (Wegue Wegue), o porquê de serem um dos melhores projectos nacionais dos últimos anos. Dancefloor gigante, que culminou com a ascensão de umas dezenas de miúdas ao palco.

A febre de sexta-feira à noite estava claramente a demandar festa da grossa. Quem olhasse de soslaio para o palco principal, podia já vislumbrar duas fileiras de speakers Marshall e o inevitável crucifixo branco, que se acendeu já para lá da uma e meia. Os Justice, provavelmente o maior nome da electro francesa depois dos Daft Punk, têm o dom de conseguir transformar um parque marítimo num club quase intimista. Logo a partir de Genesis, dançou-se em todos os quadrantes do recinto ao sabor dos agressivos mas cativantes ritmos de um duo que não precisa de se mexer para ter milhares e milhares de pessoas ao seu dispor. D.A.N.C.E. provoca um friozinho no estômago de nostalgia, afinal 2007 até já está longe na cronologia, mas isso só municia ainda mais o apetite pelo movimento, que se torna involuntário e incontrolável quando fixado no hipnotizante conjunto de luzes trazido por Gaspard e Xavier.