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Reportagem

Paredes de Coura 2012 - Dia 2

Um dia dois animado por Willis Earl Beal, Kitty, Daisy & Lewis, Midlake, Patrick Watson, Sleigh Bells, dEUS, Digitalism, Totally Enormous Extinct Dinosaurs e Kavinsky.

Por Colectivo PA 17 de Agosto, 2012

por João Ruivo e João Torgal

No segundo dia de festival a chuva pareceu dar tréguas e, embora o sol ainda não brilhasse com intensidade, já permitiu desfrutar da primeira das sempre deliciosas sessões de jazz na relva. Mais tarde, já no recinto, foi Willis Earl Beal e a sua soul/gospel distorcida quem abriu as hostilidades no palco Vodafone FM. Beal é dono de um estilo muito próprio (tanto musical como visualmente) e a sua voz calejada por uma vida dura (recorde-se o seu passado como sem-abrigo) transpira emoção. Apesar de cuidar muito a sua imagem, a mensagem e a forma como a interpreta são mais importantes do que a música propriamente dita. Talvez por isso o músico de Chicago se apresente sozinho em palco sendo capaz de se servir de instrumentais pré-gravados sem que a sua música perca intensidade.

O palco Vodafone FM já está em funcionamento há dois dias, mas o palco EDP ainda estava por estrear. Essa honra coube aos três irmãos Kitty, Daisy & Lewis que, ao vivo e na companhia dos seus pais (Graeme e Ingrid), se apresentam como uma família completa. Estes jovens britânicos vão contra todas as correntes de modernidade e agarraram-se a uma estética e sonoridade muito anteriores à sua data de nascimento. A sua música com raízes no R&B clássico misturado com country, blues e muito, muito swing é irresistível e temas fortes como Messing With My Life ou Don’t Make a Fool Out of Me (ambos do seu último disco: Smoking in Heaven) puseram todos a dançar como se o festival tivesse andado para trás no tempo até aos anos 50.

A melancolia quente dos texanos Midlake revelou-se o complemento musical perfeito para dar as boas-vindas ao Sol no belíssimo anfiteatro de Paredes de Coura. Várias guitarras, harmonias vocais, flautas bucólicas ou teclados solenes a fazer lembrar um cravo compõem um som próximo da (melhor) folk mais introspectiva. Um concerto muito bonito e, ao contrário de outras ocasiões futuras (somos capazes de apostar), adequadíssimo ao primeiro final de tarde solarengo (ainda que tímido) desta edição do festival.

Estranho… talvez seja esta a melhor palavra para caracterizar o espectáculo de Patrick Watson. Se tudo tivesse sido como na parte intermédia, em que, numa escuridão quase total, o canadiano reuniu todos os seus músicos à volta do mesmo microfone e o ambiente intimista se tornou quase inaudível, o concerto teria sido totalmente desajustado. Mas, apesar de este não ser nitidamente o ambiente perfeito para a serenidade musical que é transmitida do palco, nem tudo foi assim: a boa disposição de Watson é contagiante, a voz em falsete é impressionante, os músicos estão em perfeita sintonia e o final foi arrebatador. Primeiro com o tema título do último disco Adventures in Your Own Backyard, com um fortíssimo impulso mariachi transmitido pelo trompete (que vontade de ver os Calexico ao vivo). Por fim, apenas com voz e piano, num encore muito pedido e aparentemente improvisado, chegou a doçura simples de The Great Escape. Foi estranho e irregular, mas foi bom.

Quando se vê os Sleigh Bells ao vivo, é difícil dizer algo mais brando do que referir que são um verdadeiro flop. Guitarras em distorção total, electrónica avassaladora pré-gravada e a vocalista Alexis Krauss a roçar o histerismo são a base de um som que parece ter apenas como objectivo criar uma catarse sem qualquer conceito concreto de base. É um pouco como pegar na música que é feita pelos Crystal Castles (que deram um concerto fraquinho na edição do ano passado de Paredes de Coura) e retirar todo e qualquer travo melódico e complexo. Citando um ilustre festivaleiro, a agressividade era tão grande e tão gratuita que parecia “uma matança de porco”. Muito mau.

Os dEUS vêm com tanta frequência a Portugal que a presença da banda belga em Paredes de Coura já não é propriamente um atractivo especial. De qualquer das formas, como mostraram em Fevereiro, continuam a dar grandes concertos e Tom Barman é ainda um performer de excelência. Assim sendo e porque, apesar de longe do período áureo, têm uma carreira de respeito, soa estranho que tenham tido direito a apenas uma hora de concerto, sem encore, e que na plateia fossem recebidos com tanta indiferença (as contingências de uma grande percentagem de pessoas vir a Paredes por uma e uma só banda). É que, francamente, mesmo com alguns problemas técnicos pelo meio, temas como Bad Timing, Instant Street ou Fell Off The Floor, Man continuam a ser clássicos imaculados e os temas mais recentes (destaque para o novíssimo Girls Keeping Dream, que é um bela canção em toadas funky) ganham bastante ao vivo. Foi bom, mas foi apenas um semi-concerto dos dEUS, pelo que soube claramente a pouco.

Justice e Digitalism, Alive e Paredes de Coura… torna-se complicado definir este tipo de concertos. São apelos puros ao divertimento, cumprindo particularmente bem essa função para quem está nas condições adequadas para o desfrutar, e visualmente estimulantes (q.b. pelo menos). Mas, para quem não é um apaixonado pela electrónica, fica sempre a sensação de que é tudo pobre, que falta algo orgânico que complemente a parte computorizada. No concerto dos Digitalism, essa função foi apenas exercida pela voz, ainda para cima pouco audível, e é impossível não lamentar que um tema viciante como “Pogo” não tenha um baixo para lhe dar outra autenticidade. Assim, foi apenas um espectáculo eufórico, seja em que sentido for.

De regresso ao palco secundário, marcou presença a electrónica de um Totally Enormous Extinct Dinosaurs vestido a rigor e o francês Kavinsky, num DJ set que passou por Daft Punk, Justice ou Rapture e que terminou inevitavelmente com Nightcall, tema do próprio e que ficou famoso através da banda-sonora de Dr1ve. E, para fechar, houve ainda o regresso de Nuno Lopes, que promete fritar mais umas cabeças nos finais de noite do festival.