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Reportagem

Super Bock Super Rock - dia 3

Não deixem que vos enganem: Peter Gabriel foi o senhor incontestável do derradeiro dia do Super Bock Super Rock.

Por André Forte 8 de Julho, 2012

Despachadas as bandas portugueses nos dois primeiros dias, foi a vez da cantora espanhola Bebe tentar a sua sorte com o público português pela segunda vez desde Dezembro passado, fazendo as honras do palco que ia receber ninguém mais do que Peter Gabriel – esse grande senhor, não deixem que os fãs de Skrillex vos digam o contrário; parafraseando a bíblia, perdoem-nos, que eles não sabem o que ouvem.

E assim era, mais ou menos, o caso de Bebe. A cantora não sabe bem o que quer, e entre uma imagem a beber da irreverência de M.I.A., e uma sonoridade que ora era tão rock quanto Alanis Morissette, ora tão r’n’b como todas as cantoras dizem hoje ser, de Bebe pouco ficámos a saber. Fora, talvez, que é realmente fluente em castelhano. E a indiferença da audiência era demonstrativa disso mesmo.

Perfume Genius aproveitou, então, este hiato de identidades para mostrar a sua. Ao piano, a gozar do pôr-do-sol e do acalmar do dia, Mike Hadreas teve a sorte de poder actuar na única altura em que as coisas não lhe correriam mal. Ainda que, de vez em quando, acompanhado por uma bateria, o alinhamento que percorreu centrou-se nas baladas e na sua voz quase de surdina, conseguindo insinuar-se a quem a isso estava disposto.

Esta letargia seria quebrada por Aloe Blacc. Aquilo que associamos ao norte-americano é superado em concerto. Ainda que cheio de alma, a sua música em disco não deixa antever o aparato funk com que se rodeia em palco. Como Sharon Jones costuma dizer, da voz de Blacc propagou-se a primeira epidemia do SBSR; os sintomas eram pernas descontrolados e braços bamboleantes. A senhora Jones chama-lhe Dap-Dip. Aloe Blacc não parece ter um nome para o que faz com a sua neo-soul, mas justifica a ausência teórica com a sua entrega e justifica o seu êxito com o feedback que obtém.

Seguir-se-iam os Little Dragon, com a sua electrónica já a puxar para a farra. Uma farra que acabaria por sofrer de duas síndromes, voltando às metáforas de medicina: falta de electricidade e Peter Gabriel. Sim, a luz faltou durante a actuação dos pequenos lagartos suecos, o que, juntando ao facto de pouco faltar para o regresso de Peter Gabriel aos palcos portugueses, digamos que estragou tudo.

Gabriel deixou tudo claro com uma música, logo com a primeira. Heroes, de David Bowie. Com um aparato especial, como só o britânico tem conseguido apresentar ao longo dos anos, nos seus concertos, a experiência da New Blood Orchestra, auxiliada por ecrãs conseguiu aquilo que ninguém esperava ser possível: quase silenciar o recinto do SBSR (vou ignorar o facto dos tipos da tenda da electrónica serem, certamente, umas bestas e provavelmente surdos). Todas as atenções estavam centradas em Peter Gabriel, um inglês com idade para ser pai ou avô da grande maioria da audiência, mas que estava em palco apenas como alguém que sabe exactamente o que está a fazer. Com uma calma oceânica, das que nos deixa na ilusão de que, aconteça o que acontecer ali, tudo vai correr pelo melhor.

Mesmo que as suas músicas originais tenham conhecido melhores formas, mais fortes com a sua banda do costume, tudo correu, realmente, numa acalmia que não se esperava perante um ícone como o autor de Us, Up ou de So. Os seus êxitos não foram esquecidos, músicas tão grandes quanto a própria memória que se tem delas, de Solsbury Hill, a In Your Eyes, ou a Secret World  e a Downside Up (ambas músicas absolutamente incríveis, que sofreram enormemente da falta de David Rhodes e Richie Evans, respectivamente, e das suas guitarras). Mas momentos como Signal to Noise ou Aprés Moi, coroado com o “very first fuck up” de quem estava em palco, assumido por Gabriel com o sujeito “our”, ou seja, “nosso” (o britânico esteve perante nós como alguém que só consegue o que consegue com o auxílio de quem o rodeia) e com a subida ao palco da própria Regina Spektor, compositora do tema. Peter Gabriel foi maior do que se pudesse imaginar, ao superar todas as condições adversas de actuar num festival e dar, ainda, um grande concerto, ao ainda conseguir arrepiar, do alto dos seus 62 anos, com a sua voz. No final, estávamos todos cansados, depois de qua