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Milhões de Festa 2014
Reportagem

Super Bock Super Rock - dia 3

Não deixem que vos enganem: Peter Gabriel foi o senhor incontestável do derradeiro dia do Super Bock Super Rock.

Por André Forte 8 de Julho, 2012

Despachadas as bandas portugueses nos dois primeiros dias, foi a vez da cantora espanhola Bebe tentar a sua sorte com o público português pela segunda vez desde Dezembro passado, fazendo as honras do palco que ia receber ninguém mais do que Peter Gabriel – esse grande senhor, não deixem que os fãs de Skrillex vos digam o contrário; parafraseando a bíblia, perdoem-nos, que eles não sabem o que ouvem.

E assim era, mais ou menos, o caso de Bebe. A cantora não sabe bem o que quer, e entre uma imagem a beber da irreverência de M.I.A., e uma sonoridade que ora era tão rock quanto Alanis Morissette, ora tão r’n’b como todas as cantoras dizem hoje ser, de Bebe pouco ficámos a saber. Fora, talvez, que é realmente fluente em castelhano. E a indiferença da audiência era demonstrativa disso mesmo.

Perfume Genius aproveitou, então, este hiato de identidades para mostrar a sua. Ao piano, a gozar do pôr-do-sol e do acalmar do dia, Mike Hadreas teve a sorte de poder actuar na única altura em que as coisas não lhe correriam mal. Ainda que, de vez em quando, acompanhado por uma bateria, o alinhamento que percorreu centrou-se nas baladas e na sua voz quase de surdina, conseguindo insinuar-se a quem a isso estava disposto.

Esta letargia seria quebrada por Aloe Blacc. Aquilo que associamos ao norte-americano é superado em concerto. Ainda que cheio de alma, a sua música em disco não deixa antever o aparato funk com que se rodeia em palco. Como Sharon Jones costuma dizer, da voz de Blacc propagou-se a primeira epidemia do SBSR; os sintomas eram pernas descontrolados e braços bamboleantes. A senhora Jones chama-lhe Dap-Dip. Aloe Blacc não parece ter um nome para o que faz com a sua neo-soul, mas justifica a ausência teórica com a sua entrega e justifica o seu êxito com o feedback que obtém.

Seguir-se-iam os Little Dragon, com a sua electrónica já a puxar para a farra. Uma farra que acabaria por sofrer de duas síndromes, voltando às metáforas de medicina: falta de electricidade e Peter Gabriel. Sim, a luz faltou durante a actuação dos pequenos lagartos suecos, o que, juntando ao facto de pouco faltar para o regresso de Peter Gabriel aos palcos portugueses, digamos que estragou tudo.

Gabriel deixou tudo claro com uma música, logo com a primeira. Heroes, de David Bowie. Com um aparato especial, como só o britânico tem conseguido apresentar ao longo dos anos, nos seus concertos, a experiência da New Blood Orchestra, auxiliada por ecrãs conseguiu aquilo que ninguém esperava ser possível: quase silenciar o recinto do SBSR (vou ignorar o facto dos tipos da tenda da electrónica serem, certamente, umas bestas e provavelmente surdos). Todas as atenções estavam centradas em Peter Gabriel, um inglês com idade para ser pai ou avô da grande maioria da audiência, mas que estava em palco apenas como alguém que sabe exactamente o que está a fazer. Com uma calma oceânica, das que nos deixa na ilusão de que, aconteça o que acontecer ali, tudo vai correr pelo melhor.

Mesmo que as suas músicas originais tenham conhecido melhores formas, mais fortes com a sua banda do costume, tudo correu, realmente, numa acalmia que não se esperava perante um ícone como o autor de Us, Up ou de So. Os seus êxitos não foram esquecidos, músicas tão grandes quanto a própria memória que se tem delas, de Solsbury Hill, a In Your Eyes, ou a Secret World  e a Downside Up (ambas músicas absolutamente incríveis, que sofreram enormemente da falta de David Rhodes e Richie Evans, respectivamente, e das suas guitarras). Mas momentos como Signal to Noise ou Aprés Moi, coroado com o “very first fuck up” de quem estava em palco, assumido por Gabriel com o sujeito “our”, ou seja, “nosso” (o britânico esteve perante nós como alguém que só consegue o que consegue com o auxílio de quem o rodeia) e com a subida ao palco da própria Regina Spektor, compositora do tema. Peter Gabriel foi maior do que se pudesse imaginar, ao superar todas as condições adversas de actuar num festival e dar, ainda, um grande concerto, ao ainda conseguir arrepiar, do alto dos seus 62 anos, com a sua voz. No final, estávamos todos cansados, depois de quase duas horas em pé perante uma orquestra, mas estávamos todos dispostos a cantar Don’t Give Up por mais outra hora.

Ou seja, quando cheguei a St. Vicent, totalmente absorvido pela actuação do britânico, já o concerto ia a meio. Um sacrifício totalmente merecido, de resto. Não, não me arrependo, mesmo que Annie Clark tenha acabado por fazer um stage dive, tenho mostrado ter um par de tomates maior do que todas as bandas de rock que pisaram o palco secundário, tenha rockando as meias de toda a audiência e ainda solado com um feeling capaz de envergonhar muito boa gente. Mas, convenhamos, vergonha seria interromper um pedaço da história a acontecer, não é? Seria, igualmente, vergonhoso se vos mentisse e dissesse que St. Vincent não o fez da melhor forma possível. Seria o grande concerto do palco EDP, sem sombra de dúvida.

Já os Shins acusaram os problemas da primeira noite: a nostalgia dos grandes álbuns de há meia-década atrás viria a vencer as novas músicas de James Mercer e companhia. Contudo, não se aponte falta de argumentos como um defeito da banda norte-americana. Com o seu rock a tresandar à new wave dos anos 80, a passar ao lado do post-punk tão repisado nesta última década e a citar no som de guitarra e na voz do frontman referências que podem ir desde os amplamente reconhecidos Talking Heads e o menos aclamado, mas igualmente grande, Joe Jackson. Claro, não foi esquecida a cover de Pink Floyd, Breathe, confirmando aquilo que foi de imediato assumido por Mercer no início do concerto: perante a excitação do público com a aguardada estreia dos Shins em Portugal, o regresso ficou mais ou menos acordado. E será igualmente aguardado.

A noite, oficialmente não acabaria com Regina Spektor, mas nós não nos arriscamos a ver Skrillex até ao fim. Primeiro, porque os fãs do rapaz fizeram questão de não deixar ninguém ouvir a senhora; depois, porque é o Skrillex. Mas já lá vamos.

Regina debateu-se com a pior audiência, no dia com mais pessoas do festival (a poeira parecia estar à da multidão para atacar em força todos os pulmões possíveis e imagináveis), pelo que devemos agradecer a Peter Gabriel pelo momento com a americana de origem russa, em que foi possível, sim, degustar a sua voz, bela e cristalina. Tal não seria possível da melhor forma no seu próprio concerto. Contudo, se há artérias por onde o indie que tem, também, os Shins no seu código genético vai bombeando melhor, Spektor é um desses poucos vasos sanguíneos que ainda tem vigor para mostrar; o seu piano consegue ser tão rock, quanto pop e folk, só com o auxílio de um violoncelo e de uma bateria, e consegue ser algo identificável como sendo dela, e demais ninguém. Ainda que a sua presença não se tenha feito sentir como seria de desejar, a sua beleza continua tão intensamente frágil como sempre. Se os ouvidos não o podem apreciar, que se regalem os olhos.

Indo ao Skrillex, devo dizer que ele demorou cerca de cinco minutos a dropar o primeiro bass. Menino do caraças.