Saltar para Conteúdo Saltar para Navegação
Reportagem

Thurston Moore @ Galeria Zé dos Bois, Lisboa

Foi só entrar em palco e pegar na guitarra para se perceber que ia ser lendário. E assim foi.

Por Tiago Esteves 15 de Março, 2012

Recentemente, no mesmo palco, Glenn Jones referia que idolatrava John Fahey. Posteriormente, teve a oportunidade de o conhecer e aperceber-se de que o mesmo se manifestava totalmente contra todo o tipo de apreço desmedido e vedetismo. Na altura, pensava quem seriam os artistas que colocaria num pedestal. Ao ver entrar Thurston Moore em cena recordei-me do que dizia Glenn Jones nessa noite. Mais tarde, finalizado o concerto não pude deixar de pensar no americano como um desses poucos músicos aos quais faria uma vénia. Curiosamente, também se nota em Thurston, perante a postura adoptada, caracterizada pela simpatia e o prazer com que se entrega a todos os presentes, uma total aversão à devoção do indivíduo, mas uma completa afeição à sua guitarra já com notáveis registos de que a história por ali passou.

Apresentado como um concerto íntimo, completamente diferenciado em relação ao que ocorreu no Teatro da Trindade, no dia anterior, era grande a expectativa para perceber o que iria ser proporcionado. Seria totalmente improvisado? Seria em versão acústica? Seria com ou sem distorção? Teria vozes ou não? No fundo, acabou por não ser nada disto, mas por ter tudo isto.

Acompanhado por Samara Lubelski , Keith Wood e John Maloney, aquilo que foi servido poderia ser definido apenas com a leitura do autocolante que Moore tem na sua guitarra: “I Love Caos”. Olhando para aquela citação, seria difícil não imaginar qual seria a definição concreta do termo caos no fenómeno musical. Assim, sentindo o que se passava no Aquário da ZDB, não era impossível transcrever o termo para as ocorrências em palco. Continuando a meditar acerca de tal frase e absorvendo o que nos proporcionavam os quatro elementos, a transposição da mesma seria para algo como uma catarse de profunda desagregação e confusão. No entanto, a genialidade era tanta que transformava essa componente de caos, de distorção e feedback em música.

De forma desregrada e veloz, iam sendo transmitidas várias componentes musicais genuínas, traduzindo-se por momentos em que os crescendos e decrescendos sonoros, apenas instrumentais, baseados no desafio aos instrumentos, se compadeciam através de situações de pura desordem musical, portanto, num estado caótico. A beleza concentrada de todo este fenómeno alicerçava-se na paixão que se empregava na música e na forma como se devorava aquilo que era oferecido.

Se numa primeira parte surgiu a apresentação daquilo que foi referenciado como uma nova banda, de seu nome Chelsea Like Moving, na segunda assistiu-se a uma representação quase na íntegra do álbum Psychic Heart’s, que ainda atestou e compôs a ensaboadela sonora que se estava a testemunhar. Não é magnífico que, aos 53 anos, um homem continue a demonstrar uma frescura, uma necessidade de inovar e a