Saltar para Conteúdo Saltar para Navegação
Reportagem

Vodafone Mexefest Porto - dia 1

O primeiro dia do festival culminou com a actuação da americana St. Vincent no Coliseu do Porto.

Por João Ruivo e André Forte 6 de Março, 2012

Em noite de clássico futebolístico no qual o F.C. Porto levou a melhor sobre o Benfica é quase irónico que uma das ruas históricas da cidade do Porto se encha de vermelho para receber a primeira edição do Vodafone Mexefest . Firmado em sonoridades essencialmente urbanas, este festival de inverno vem deslocalizar a movida portuense para o outro lado da Avenida dos Aliados. A ideia é não permitir tempos mortos e pôr toda a gente a mexer-se de sala em sala na Rua Passos Manuel.

Tiago Sousa – 19H00

Depois do reboliço, que ditaria o ritmo de todo o festival, protagonizado por um demasiado fugaz Josh Rouse na FNAC de Santa Catarina, Tiago Sousa apresentou-se ao piano como a solução perfeita para os ritmos cardíacos elevados do sobe e desce deste primeiro Mexefest no Porto. De corpo e espírito nos últimos três registos, com maior enfoque em Walden Pond’s Monk e um sorrateiro levantar de véu sobre o próximo Samsara, o autodidacta do Barreiro debateu-se com o ruído típico de um café. Não que o Majestic não se tenha silenciado para sorver um pouco da melancolia de Tiago Sousa sob o olhar atento das gárgulas entre o tecto e a parede, quebrando a rotina imposta num local do género. No entanto, era impossível cessar o ritmo dos empregados de mesa, numa correria exaustiva. Ainda assim, a música foi a camada que mais encheu todo o Majestic – a sua parte material, assim como a imaterial. AF

Best Youth – 21H40

Os Best Youth deixaram a solidão do duo nos primeiros passos de Winterlies. Enquanto o EP de estreia ganha fôlego no panorama da pop nacional, os portuenses procuraram outros pulmões para ajudar à sua escalada e incluíram na formação da banda, ao vivo, o baterista Nuno Sarafa, experimentado nestas paragens pelos quilómetros que adicionou na estrada com X-Wife. Com a orgânica extra que ganham com a presença das baquetas, os Best Youth aproveitaram ainda a oportunidade para antecipar um pouco o seu futuro com quatro canções de um EP que já está a ser cozinhado, que encontrou a mesma recepção que os temas do registos de estreia e que mantém os tons outonais da banda. Tiremos os nossos chapéus perante a formação reforçada da banda e da sua capacidade de levar as batidas dos peitos para o resto dos membros. AF

Norberto Lobo – 21H45

O virtusiosmo/sentimentalismo que Norberto Lobo arranca das cordas da guitarra, já se sabia, não ia ser um momento menor do festival. Nem mesmo o horário difícil, tão colado ao fim do duelo de titãs da bola, se mostrou um impedimento para que a sala do cinema Passos Manuel se enchesse para ver o guitarrista a debitar as notas de um Fala Mansa mais americanizado do que aquilo a que os anteriores registos nos habituaram. A fornarda de Norberto Lobo tem sido rica em músicos fluente na língua de Carlos Paredes, e Filho da Mãe tem o conterrâneo pela garganta, na melhor forma que a expressão possa assumir, mas a verdade é que a bandeira dos fingerpickers portugueses continua nas mãos do autor de Mudar de Bina, que entretanto já conseguiu um meio de transporte com mudanças – a precisão dos dedos calejados já se sente em cada nota, sempre sentida, do lisboeta. Mas não se devia esperar menos: se a pequena performance de Lobo na Vodafone FM (estes excertos eram amplificados para a rua) conseguiu demover uma tuna académica de empestar o ambiente do festival, pouco falta para chegar ao nível de mover as montanhas. AF

Niki & The Dove - 22h40

A primeira actuação da noite no maior palco do evento coube aos Niki & the Dove - destacados pela BBC como uma das bandas a manter debaixo de olho em 2012. O electro-pop destes suecos é convidativo a um pézinho de dança sem no entanto se assumir como muito colorido. Com um grande ênfase na percussão e em sintetizadores os temas sucediam-se com  aquela precisão e eficácia que é reconhecida aos suecos, no entanto, com o Coliseu a meio-gás, ficou a ideia que este espectáculo teria beneficiado de um espaço mais pequeno e sem cadeiras. JR

Cass McCombs – 23H15

Cass McCombs apontaria para o intimista – isso ficaria claro desde os primeiros momentos do concerto, em que o frontman norte-americano, que dá o nome por toda a banda que se apresentou no palco do Teatro Sá da Bandeira, equilibrou o problema técnico nos teclados com um pedido para que baixassem as luzes. E foi quase à luz das velas que viajámos pelos Estados Unidos. Em contraste com o concerto de Josh Rouse, mais contador de histórias, McCombs, porventura devido ao nomadismo a que se associa, mostra-se mais um homem de paisagens. Foi, de resto, no momento alto da sua actuação que a sua folk se arrockalhou para fazer a topografia das paragens avermelhadas da Califórnia que outrora também inspirariam os Doors – não é por acaso que a jam de Angel Blood soava à versão minimal de Riders On The Storm. AF

Russian Red -  23h25 (+30 mins de atraso)

Quando Russian Red sobe finalmente ao palco é possível reparar que as cortinas vermelhas do Ateneu Comercial do Porto  condiziam com o tom do seu batom. Esta observação pode parecer pouco pertinente mas a sintonia entre o intimismo da música de Lourdes Hernandez e o ambiente da sala era tanto que até nesse pequeno pormenor estavam de acordo. E foi assim - de forma intimista apesar da sala cheia - que a simpática madrilena apresentou o seu mais recente disco de originais - Fuerteventura. Cantando em inglês e dirigindo-se ao público em espanhol, a voz quente e meiga de Lourdes provocou suspiros um pouco por toda a sala e as suas melodias ligeiras enraizadas no universo norte-americano encantaram todos os presentes. JR

King Krule – 00H10

A primeira grande dúvida sobre a actuação de King Krule prende-se com a idade dos membros da banda: se o frontman conta com 17 primaveras e o dia 2 de Março era o aniversário do guitarrista, que ascendia ao patamar etário do anteriormente Zoo Kid, como raio é que eles conseguiram vir de Inglaterra para rockar a garagem do Maus Hábitos? Com autorização dos respectivos encarregados de educação, pois claro. Esta foi, de resto, a única dúvida sobre os ingleses, também, porque, embalados nesta aura de excursão escolar, os londrinos enfrentaram a audiência como se estivessem numa espécie de viagem de finalistas do secundário: cheios de genica e sem nada para perder – o estragos ainda ficam à responsabilidade dos outros. Por muitas influências que colem a King Krule e companhia, o seu som é rock e foi isso que ecoou nas paredes da garagem até  à Alta-Baixa da Invicta. AF

St. Vincent - 00h30

Gigante como no vídeo de Cheerleader mas nem de longe nem de perto tão frágil, assim foi o concerto de St. Vincent. Com honras de cabeça de cartaz, Annie Clark tinha direito a um concerto mais longo o que lhe permitiu, não só apresentar o seu novo disco - Strange Mercy, como também passar em revista os pontos altos dos seus trabalhos anteriores. Com uma energia e força notáveis Annie não perdeu tempo e logo assumiu as rédeas do espectáculo. Abrir com Surgeon e Cheerleader é uma das maiores provas dessa sua confiança.

A experiência de palco de St Vincent é bem evidente na forma como actua mas foi particularmente notável quando, já perto do fim, comentou que era uma pena o publico estar sentado visto a próxima música ser uma dance-jam. Annie sabe bem como os últimos temas de um concerto são habitualmente os que mais marcam e tal como ela antevia, o público respondeu de imediato transformando o Coliseu numa enorme pista de dança ao som de Marrow. Estava o caos semeado e Annie mostrava-se visivelmente satisfeita com isso. Daí até ao fim a confusão iria continuar com a protagonista da noite a descer do palco durante o último tema - a furiosa Your Lips Are Red. JR

Emika – 01H15

Esta foi a minha surpresa da noite e, se não levar o galardão “concerto do festival do André” para casa, leva certamente o seu equivalente “concerto do primeiro dia do festival do André.” A “academia”, permitam-me a referência narcisista, não se debateu muito com estas dúvidas, limitando-se a excluir os singles de uma electrónica de uma batida grave por tempo da avaliação daquilo que foi um concerto rico, muito além da simples sexualidade a que os sintéticos muitas vezes se reprimem. Emika levou à sua música a sensualidade do trip-hop de Bristol e acrescentou-lhe a inteligência das batidas em camada e em complicação quase contra-tempo do IDM – e quem é que não prefere uma miúda inteligente e sexy a uma tipa oferecia? Claro que nem toda a gente se rendeu por inteiro aos encantos da britânica, soando o ruído de fundo das conversas muito alto. Contudo, a ovação no fim do concerto e o abanar dos corpos durante o mesmo silenciaram as queixas. AF

Supernada - 01h30

A hora já ia avançada e, cerca de 15 concertos depois do início do festival, o cansaço começava a tomar conta do público. Apesar disso o público não desarmou e encheu o Sá da Bandeira para receber os Supernada - mais uma demonstração daquilo que já vem sendo chamado de 'efeito Manel Cruz'.  É realmente algo redutor falar nos Supernada como um outro projecto do mítico vocalista dos Ornatos, mas seria também estúpido não fazer essa referência - é um facto incontornável.

Com um início algo morno e pautado por ritmos mais calmos, a coisa só aqueceu realmente quando o rock tomou mais conta das guitarras - o single Arte Quis Ser Vida foi um dos responsáveis desse aquecimento. Ainda assim, e apesar do Manel , como é seu hábito, ter tirado a camisola, o público não se deixou contagiar totalmente por esse calor. Houve alguns saltos, sim, e demonstrações de carinho mais ou menos exuberantes, mas ficou a ideia que a música aspirava a algo mais. Talvez fosse só o supracitado cansaço a fazer das suas. JR