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Milhões de Festa 2014
Reportagem

Vodafone Mexefest Porto - dia 2

Com o espírito do festival mais entranhado nas artérias da cidade do Porto, a cidade Invicta recebeu de braços abertos Josh Rouse e Twin Shadow nos seus regressos ao nosso jardim.

Por João Ruivo e André Forte 6 de Março, 2012

O segundo dia da proposta de mexer a Alta-Baixa do Porto com música começou com mais vigor do que o primeiro ensaio: não só se estranhava menos a ausência de carros, sendo a rua tomada pelos transeuntes-festivaleiros, como se interiorizou melhor a ideia de que se estava mesmo a oferecer algodão-doce, pipocas e chocolate quente nas ruas. O Mexefest convenceu, assim, mais pela organização e pelo bom resultado que se pode tirar do formato do que por um cartaz que não nos surpreendeu tanto quanto o de Lisboa. Levou-se o sabor doce na boca, de qualquer das formas, sempre com um aroma inconfundível a música. E desenganem-se os que têm a ideia de que poder dormir numa cama é uma vantagem, pois certamente que não subiram e desceram a Rua Passos Manuel vezes suficientes.

The Underdogs - 19h00

Chamam-se The Underdogs, são três, vêm de Aveiro e trazem consigo a sonoridade dos loucos anos do rock'n'roll.  A música deste trio é evocativa do imaginário norte-americano dos anos 50 aos 70. Seriam a banda sonora ideal para uma roadtrip acelerada naqueles estradões desertos da Route 66 ou para uma lenta viagem pelo Mississipi abaixo. Não são particularmente inovadores, mas não têm de o ser, os Underdogs fizeram da 'era dourada' da música o seu estandarte e fazem tudo por tudo para não deixar essa chama morrer. Vê-los a actuar é confirmar que o espírito do que os move está vivo e bem vivo. JR

Norton - 20h15

Beneficiando de um horário sem sobreposição de concertos os Norton apresentaram o seu pop-rock colorido perante uma sala bem composta. O quarteto albicastrense soube agarrar essa oportunidade e apostou numa boa comunicação com o público que aderiu bastante bem ao acompanhar alguns temas com palmas ritmadas e cantando inclusivamente o refrão orelhudo de Two Points. JR

The Glockenwise – 20H50

Só passaram seis meses, mas há que admitir que o Rock Sem Merdas dos Glockenwise já cá fazia falta. E porque ser sem merdas só de título não é suficiente, nada melhor do que uma entrada a pés juntos do sempre cáustico vocalista da banda barcelense, a oferecer cervejas à audiência (mesmo durante o concerto, interrompido para esse belo efeito), para marcar o ritmo. Como dizem na gíria desportiva: a primeira falta tem de ser mesmo para doer, ou, nas palavras de Nuno Rodrigues, “não nos agradeçam a nós, que não fomos nós que pagámos [as cervejas].” Depois disto, já se sabia o que aí vinha e isso notou-se bem numa audiência que já gritava as letras de cor e chegou mesmo ao ponto de fazer um mini-mosh pit (reparem que estamos a falar de Glockenwise e não de Napalm Death: haver um encosto de ombro já é uma falta para vermelho). No fundo, eles só se estão a divertir e suam as estopinhas para o provar. O efeito Building Waves faz todo o sentido, portanto. AF

Dillon - 21h00

Já os Glockenwise actuavam na Garagem Vodafone FM quando Dillon subiu ao palco do Passos Manuel envolta numa aura de mistério. O cenário sombrio e as vestes escuras ajudaram a criar esse ambiente e conjugaram-se na perfeição com a electrónica minimalista da sua música. A sua voz de menina cantada numa métrica irregular que, associada aos ritmos fortes a fazem aproximar-se de uma espécie de hip-hop delicado que hipnotizou os presentes. JR

Josh Rouse - 21h30

Sempre bem recebido em palcos portugueses, Josh Rouse é, sem qualquer conotação negativa, o eterno 'tipo porreiro' com música 'boa onda'. As raízes folk trouxe-as dos EUA, mas ao mudar-se para Espanha a sua música, tal como ele próprio, adoptou um pouco do país para si. Acompanhado pelos The Long Vacations com os quais editou recentemente o álbum que veio apresentar, Josh assume uma formação de três elementos - um baixista, um baterista/multi-instrumentista e ele próprio na guitarra. Para o final ficaram as inevitáveis 1972, Slaveship e, claro, Love Vibration, terminando em alta mais um espectáculo que ajuda à tese de que Josh Rouse não sabe dar maus concertos. JR

Fink – 22H20

A guitarra acústica de Fin Greenall revela uma faceta que não se espera encontrar em alguém que se afirma como grande nome através de colaborações com artistas pop e que tem bem claro no seu currículo o papel de DJ. Mas rapidamente se desfizeram os enganos: não era o simples som de caixa que agrada no instrumento de cordas do britânico Fink; é antes o que Greenall, a tocar pop/rock cheio de soul (por vezes quase à la Dave Mathews), consegue dele com um pormenor tão simples quanto o delay. Há pormenores que fazem a diferença e este é, obviamente, uma libertação melódica para o britânico, assim como para o baixista e para o baterista que o acompanhavam, que podiam controlar as dinâmicas de cada canção ao sabor daquilo que várias camadas de guitarra oferecem. E foi fácil render um público bem sentado a uma proposta quente, na melodia de acordes de imediatos, na voz melosa de Fink e até no ambiente acolhedor do Ateneu. AF

The Dø - 22h20

Do encontro entre uma Finlandesa e um Francês nasceram os The Dø. A dupla, que em palco se apresenta com mais elementos, foi uma das grandes surpresas deste festival. A sua música de fusão é uma mistura confusa e improvável mas que, estranhamente, resultou.  O público parecia rendido à teatralidade dos The Dø, à sua sonoridade imprevisível e aos rasgados elogios que Olivia Bouyssou Merilahti fez ao nosso bacalhau. JR

Hanni El Khatib - 23h05

A rebeldia de Hanni El Khatib faz dele o espelho da sua sonoridade. O seu blues-rock sujo sentia-se bem em casa no ambiente algo dúbio que a Garagem Vodafone FM  proporciona. O público alinhou na irreverência e abanou-se como se de um exorcismo se tratasse perante as batidas frenéticas e riffs contagiantes que vinham do palco. Ao lado de Nick Fleming-Yaryan (na bateria), Hanni incendiou o ambiente com hinos como Build, Destroy, Rebuild ou Loved One. Com o público completamente rendido e a pedir mais, houve ainda tempo para Hanni voltar ao palco e espalhar mais uma vez o caos, desta vez com Fuck It, You Win. JR

Muchachito y el Trio Infierno – 23H10

Mais numa performance do que num concerto, ainda que com poucos artifícios,  Muchachito mostrou que o diminutivo não vem da sua figura pouco nórdica, mas antes do ambiente familiar com que a sua festa cigana – no sentido mais flamenco e menos balcânico do termo, para não metermos Gogol Bordello nesta mistura – era montada. A actuação do catalão é acolhedora ao ponto de ter alguém a fazer uma pintura, ao vivo e em palco, bem atrás da banda e de conseguir arrancar gritos de onde menos se espera. Foi punk, foi rock, mas foi acima de tudo uma súcia de saltimbancos que tomou de assalto o Teatro Sá da Bandeira. AF

Twin Shadow – 00H00

Desde cedo que George Lewis Jr. se mostrou em casa, um dado pouco impressionante se dissermos que, no espaço de um ano, o norte-americano de origem dominicana actuou cerca de cinco vezes em palcos nacionais. A balançar entre o escalão de “aposta segura” e o de “demasiadas vezes por cá”, os Twin Shadow penderam para o primeiro e o seu frontman admitiu logo que não havia por que estranhar: aqui, sentem-se como “verdadeiras rockstars. Venham daí essas drogas.” À falta de queixa, vou partir do princípio que sexo não lhes falta e que muito disso se deve ao papel essencial das electrónicas na música de um dos projectos de revivalismo dos anos 80 mais flagrantes desde que voltou a ser fixe ouvir Joy Division.

Ainda que neste concerto em especial o som do Coliseu do Porto não jogasse a favor dos Twin Shadow, são, de facto, os teclados que carregam a melodia das composições. É sabido que as harmonias e o ritmo mexem corpos, mas a melodia é o motor dos sentimentos e tudo sabe melhor quando se gosta genuinamente do que se está a fazer (seguindo a linha da metáfora do “sexo, drogas e rock’n’roll”). Na invicta, os norte-americanos lidaram com um inimigo feroz, o som que pouco jus fez à voz e à perícia enquanto guitarrista de Lewis, mas que acabou por resultar a favor do concerto – a proeminência ensurdecedora dos teclados transformou um concerto rock em algo mais synthpop, fórmula arrebatadora de toda a audiência do Coliseu, sedenta para receber o americano nos seus braços (como viria a acontecer), como se do próprio Mozz se tratasse. Contudo, era apenas Twin Shadow e o concerto foi, por momentos, aborrecido o suficiente para nos lembrar de que os The Smiths estão ainda longe de regressar. AF